Psicodélica


Capítulo Encerrado
junho 13, 2013, 2:29 am
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Termina aqui o Psicodélica.

Foram muitos anos escrevendo. Alguns anos mais (muuuito mais) que outros. E, falando isso, me sinto tremendamente nostálgico. Só no servidor do WordPress, já são mais de 5 anos de blog – isso sem contar quando ele era hosteado no infame Weblogger, quando este era da Terra. Só lá, eu devia ter outros cinco anos de postagens, que se perderam, se foram. 10 anos de blog que criaram asas e voaram, de verdade…

Muita coisa aconteceu nesse tempo. Eu não sou mais a mesma pessoa que iniciou com textos humorísticos, sobre o próprio almoço, que esculhambava os shows alheios (velho mal costume) ou que vivia para tirar risada para o leitor. Agora, eu escrevo um monte de blábláblá intelectualista e sem graça. Se você me perguntar, acho que foi uma perda. Mas viver é perder. Perder é a necessidade do amadurecer, é como uma casca velha que, por mais confortável que seja, deve ser descartada para permitir que outra venha em seu lugar. Ficamos aterrorizados por que não sabemos o que tomará o lugar da boa e velha pele. Agouramos nosso futuro antes deste despontar num horizonte de possibilidades. Preferimos, muitas vezes, estagnar para não nos decepcionarmos. Estanca-se por medo de irremediavelmente romper algo aparentemente insubstituível. Mudar algo, já dizia Freud, é muito pior que permanecer neste algo – ainda que seja qualquer coisa tenebrosa.

Eu mudei e creio que seja hora de romper umas últimas ligações com minha antiga concha, para buscar algo… diferente. Eu não faço ideia do que e, bem, adivinhem: eu estou apavorado.

Este blog fez muito por mim e eu sempre terei um carinho imenso por essa pessoa que escrevia por cá e que sinto o espírito aqui ainda habitar, ao menos enquanto perdurar o servidor ou sua benevolência para com um blog que não tem mais conteúdo, somente uma lembrança que revolve no passado de si. Sei que eu voltarei muito aqui ainda, para reencontrar-me. Mas é alguém finalmente diferente, uma parte que foi suprimida e, justamente por tal, conservada. Talvez, agora, possamos conversar. Espero que ele goste com o que lhe acontecerá  no futuro, não quero lhe decepcionar. Tinha muitos sonhos, o pobre jovem. Talvez eu ainda possa lhe conceder um ou outro…

Não sei se terei outro blog. Talvez um dia, quando eu tiver algo de bom pra contar. Como se percebe, não tenho tido muitas destas coisa – as coisas boas, as coisas VERDADEIRAMENTE boas. Dizem-me vozes, presságios, que eles virão, a seu tempo e na sua própria forma. Não existem palavras dignas do fim, elas sempre traem a dignidade deste momento. Me vêem algo à mente, creio que devo deixar a cargo disto a frustração de ser a última coisa que público no meu antigo caderno virtual, antes de nos libertarmos mutuamente – ele em direção a dignidade da morte e eu… bem, eu também! Só que um pouco mais acolá, só um pouquinho mais…

Tempos melhores virão. Soldier On!

 

eu



Dumb – Nirvana
agosto 18, 2012, 11:49 am
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Mais um pequeno cover gravado aqui em casa. O video é um oferecimento da Pluvia Produções, parceiros do video anterior.



Back On-Line
março 2, 2012, 2:53 am
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Imagem

Após um curioso hiato, minha internet está de volta. Não, não houve nenhum problema técnico (nada incomum) da parte da Oi na velox de casa, que continua funcionando má maravilha na casa dos meus pais. O fato foi que levou todos esses dias para que eu arranjasse uma linha telefônica, mais algum tempo para que a Velox fosse liberada, um tanto mais para arrancar da Oi qual era meu login e senha e sem duvida teria sido muito mais se eu não houvesse tido a invalorável ajuda de meu pai na coisa toda. A restauração da minha “vida” virtual também foi adiada em prol da indispensável – e sacal – tarefa de arranjar móveis e outras coisas básicas aqui pra casa. Estranho? Não, só que desde o último post eu estou morando só num endereço conveniente aqui no centro da cidade.

Não há como não dizer o quanto a experiência vem sendo tão incrível quanto desesperante. Não existe TV aqui, nem rádio. Há pouco tempo que consegui deixar o som do computador funcional a ponto de dizer que ouço música por aqui. Ainda assim é um experiência que não trás nada de fora destas paredes que tanto possibilitam quanto oprimem. Ou seja, eu tenho estado desconectado do lado de lá, das pessoas, de tudo. Tem sido uma experiência a dois: eu e a imagem que tinha de mim mesmo na mesma situação a algum tempo atrás. Descobri, nesse relacionamento de room mates que a segunda companhia não era tão agradável quanto eu esperaria que fosse.

Mas nada que me faça buscar no Google se uma corda de varal pode ser usado efetivamente para fazer uma forca. Estou bem, apesar de tudo. Só meio tenso. É o tipo de coisa que você só pode vir a falar alguns anos depois, com a epistemologia daqueles que estão afastados daquilo que estudam – e com boa razão. 

Até.



2012!
dezembro 24, 2011, 4:54 pm
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Acho que perdi o dom da escrita – seja lá o quanto disso eu tinha. Escrevi pouco aqui no último ano, escravo da comodidade de ser “obrigado” a escrever com uma limitação de caracteres, dos textos rápidos e ligeiros nas redes sociais, mais preocupado com a mediocracia dos polegares do que com qualquer qualidade textual de fato. Foi aos poucos que eu me vi sugado pelo redemoinho humilhante que representa essa moeda simbólica das redes sociais que eu demonstraria através da seguinte equação:

Like/Curti = Muito bem, Flipper! *Joga o peixe*

Me tornei um experimento Pavloviano, um cara com uma broca no cérebro sendo condicionado a mais e mais superficialidade. Digo aqui “cansei!”, mas quando soar clara e cristalina a campainha, voltarei eu babando para o ponto de partida? É difícil dizer. Mas alguma coisa aconteceu, alguma coisa que talvez eu esteja tentando com muita força culpar um site ou outro, mas essa coisa me impediu de escrever aqui no Psicodélica. Me ressinto disso todo dia.

E num 2011 cheio de coisas para contar, desabafar, espernear, glorificar, gabar, chutar, humilhar entre outro verbos, me surpreende o quão pouca vontade eu tinha de falar alguma coisa aqui. Não foi como se eu tivesse esquecido o blog, que mantenho acho que a mais de 7 anos (caralho!), mas uma apatia me atacava, tornava inútil o esforço e me jogava contra a minha escrita. Em suma, eu me sentia escrevendo feio e não havia ninguém para sequer me dizer isso. O blog sempre fui eu e eu mesmo, mas isso parece ter virado uma questão só recentemente.

Complicado. Não sei se tem como isso mudar.

Mas deixando a associação livre de lado, gostaria de fazer um resumão 2011. Este ano, o WordPress não me mandou um e-mail dizendo que eu era lindo como em 2010 aconteceu, mas temos algumas coisas quase tão importantes quanto, como:

  • Mais uma viagem para Europa para tocar o good ol’ carimbó. França foi o destino da vez.
  • Acaba o Chá de Baganas junto com toda minha esperança em relação a dominar o mundo com uma banda.
  • Passei na seleção do mestrado, contra toda chance e esperança, com um tema que achei ser louco por insistir.
  • Feito um passe de mágica (ou voodoo), arranjei um emprego como Psicologo em um posto de saúde.

E… foi isso. Claro, não parece muito. A lista me pareceu bem maior naquela projeção mental que fazemos antes de realizar as coisas. Mas não se engane, esta lista é IMENSA. Ciclos se fecharam aqui para dar lugar a outros. A minha vida musical se tornou pequena com o passar dos meses, enquanto eu tentava insanamente estudar e trabalhar no projeto para apresentar na seleção do mestrado da Federal daqui. Analogamente, minha bandinha de instrumental me causava o mais profundo dos desgostos: tinha um trabalho foda, genial, mas acabou por que todos precisavam de dinheiro e essa necessidade parece destruir todas aquelas outras que levam ao trabalho criativo. Não existe público, não existem locais para mostrar o trabalho, não existe interesse em coisas novas. Se tive perdas em 2011 acho que a pior foi a minha inocência em relação à bandas e ao suposto cenário que elas surgem. 2011 infligiu danos a isso de forma que eu só poderei seriamente avaliar talvez ano que vem. A consequência imediata, no entanto, foi a de que tocar se restringiu a mais uma atividade fria e monótona para ganhar dinheiro – coisa, que, por sinal, deverei repetir hoje mais uma vez.

Essa gangorra rolou até meados de julho onde mais uma vez entrei no meu sabático. Mais uma viagem de dois meses alternando cidades entre a França e a Espanha. Ao contrário da viagem passada, onde vivi aquela magia de estar “por ai” com aquela banda, enfrentando as (inúmeras) durezas do caminho, esta foi dominada por um mal-estar, um cinismo tal, que se configurou na segunda grande perda de 2011: o sonho da vida na Europa. Mas disso eu falarei outro dia. Basta aqui dizer que é provavelmente a última viagem para as bandas de lá. Como músico ao menos.

Ao retorno ao Brasil (nosso e de um espanhol, história curiosa que ainda está no seu epílogo), também retornam as preocupações com o mestrado. Corre-se para aprontar tudo – já que nada foi feito durante a viagem – e consigo a entrada na Federal, falando de Psicanálise e Schoenberg. SCHOENBERG! A minha felicidade só não foi maior do que a minha surpresa por ter encontrado não somente aceitação para com o assunto, mas também pelo profundo conhecimento da questão por parte do orientador.

E ao fim do ano, logo após a oficialização do mestrado, eu assinei contrato para trabalhar como psicologo em um posto de atenção básico da prefeitura. Para alguém que nunca havia tido nenhuma especie de renda fixa, vocês podem imaginar o quanto isso tem mudado um bocado de coisas para mim.

Ao fim deste relato, o que dizer de 2011? E que esperar do ano seguinte?! Como no ano passado, quando escrevi sobre 2010, eu respondo: não sei! Previsões e planos nunca funcionaram bem para mim. É melhor tudo fluir, mesmo que as vezes como na placidez da águas profundas e outras nas quebradas dos rios ligeiros. 2011 foi… estranho. Mas abriu um caminho que pode tornar 2012 muito interessante, apesar de que prevejo certa melancolia por tantas e tão pesadas perdas. Mas disso só o tempo irá dizer. Mas como um preview do que pode rolar em 2012, saibam que a primeira compra do apocalíptico 2012 ilustra o post de hoje.

Feliz Natal (blergh) e um tumultuado 2012!

UPDATE: Numa incrível demonstração do meu surpreendente (e inconsciente) desprezo pelo assunto, eu omiti um dos acontecimentos que costuma pesar mais ao olhar alheio, mas que tem feito a menor diferença para mim: cortei os meus longos dreads. Sim, graças ao emprego. SIM! Vendi a minha dignidade, mas e daí? Com a queda das madeixas meu problemas e realizações não deixaram de existir, o cigarro não me mata mais do que fazia antes e certamente não perdi nenhum super poder ao estilo Sansão. Na verdade, se me serviu de algo esses quase 4 anos que eu resisti e aturei a todo tipo de preconceito e problemas, foi para aprender desprendimento com as coisas mais banais e um apego àquelas mais essenciais. Os 20 Dreads que estão aqui na minha gaveta não são um Cristo sobre a colina, uma memoria dolorosa ou nada tão drástico. Eles me lembram de bons tempos, onde as coisas tinham um caráter diferente. Mas é mais ou menos só isso.

Vou precisar fazer outro banner pro blog, creio. =]



Engraçado…
outubro 10, 2011, 12:51 am
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…são os momentos que eu volto aqui pro blog.

Não lhe abandonei, xuxuzinho. Só precisava recarregar a barra de POW!



The Siege Continues…
junho 15, 2011, 3:53 pm
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o Youtube não poderá resistir por muito mais tempo à tamanha cafonice:

Mas tecendo alguns comentários sobre o vídeo, eu realmente não queria passar nenhuma mensagem politica ou humanitária com ele – mesmo que sejam apenas alguns segundos que usei de uma filmagem à uma visita em um orfanato, não creio que, mesmo assim, a coisa toda esteja livre dessas conotações.  Só a palavra “órfão” já parece trazer consigo toda uma conotação meio “Criança Esperança” para a obra, mesmo usada em inglês. Não posso dar sentidos prontos a uma obra (seria terrivelmente errado fazer-lo), mas peço para que olhem um pouco além dessa proposta humanista e tentem ir um pouco mais a fundo nesse significante “órfão”, além de suas conexões banais.

Pois para além das obviedades, pode aguardar um tesouro àqueles que não esperam-no.



Análises Parte 2 – Inner Garden
janeiro 17, 2011, 6:55 pm
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Continuando a série de posts com a interpretação de duas músicas do King Crimson, hoje trataremos da segunda, chamada Inner garden que é dividida no CD Thrak em partes I e II. Eu poderia aplicar o mesmo conceito aplicado à primeira música (One Time) de desvendar símbolo por símbolo (o que quer dizer, a priori, transformar a música numa série de símbolos interpretáveis e então ir, um a um, desvendando o seu significado), mas creio que uma técnica diferente possa ser utilizada à música em questão por uma série de fatores que compartilho aqui com vocês.

Na verdade eu proponho mais que uma mudança no método pelo qual podemos entender um pretenso significado para esta música. Gostaria de propor nada menos que o oposto disto, uma interpretação que não busca um significado, mas a sua antítese, um não-entendimento da música para que, mesmo ao custo de uma aparente não-apreensão do valor da música, possamos chegar a uma construção diferente daquela que se espera da razão ilusória das leis conscientes.

Que diabos eu acabei de falar, não é?

Só será possível o entendimento da questão revelando o meu recente interesse pela estética Surrealista, que já conhecia através da obra clássica de Salvador Dalí, mas que só me foi apresentada “formalmente” pelo meu colega Bendelak, um companheiro psicanalítico com o qual estudo algumas coisa, incluindo o gênero em questão. Disse “formalmente”, pois ele, entre muitas coisas, me apresentou os trabalhos de André Breton e a sua escrita automática, que são o fundamento da estética surrealista.

Não quero me aprofundar na questão surrealista, exceto em um ponto: a valorização da cena que o surrealista opera. Breton fala no “Manifesto Surrealista” que a imaginação é a única forma pela qual se pode adivinhar o que poderia ser. Mas a interdição ao sujeito – interdito social – o impele a trancafiá-la, enjaular-la em prol de um bem-estar fictício. Para o surrealista, a produção que transgride a forma e, num sentido aparente, mesmo a lógica da estrutura narrativa apenas impele o sujeito a sabotar estas mesmas barreiras sociais impostas às maravilhas imagéticas que estão atrás da cortina de ferra da mente. Em miúdos, uma cena – por mais que não pareça fazer sentido – vale mais que mil palavras.

Isto me pareceu extremamente conveniente. Em todas as manifestações artísticas que eu tentei realizar, este sempre foi um conceito que carreguei comigo, apesar de nunca ter me dado conta disso até pouco tempo atrás. A imagem, a cena é tudo! Faço pequenas regressões a vários momentos em minha vida a confirmar que essa reverência ao primado da cena, a busca por ela. Mas coloquemos aqui a coleira no cão psicanalítico das associações livres. Isto não é sobre mim, afinal. Ainda.

E, por fim, chegamos ao que isso tem haver com a música de fato. Àqueles que me seguiram até aqui, congratulo-os. Foi como ter sido levado a um destino próximo através do hemisfério errado, mas talvez valha a pena. Eis que a música Inner Garden (e vou me referir a ela como uma só, unindo as suas duas partes, por enquanto) me sugere algo terrivelmente diferente da música anterior. Se a primeira parecia clamar por um sentido às imagens que propunha, por algo que me parece uma falha em conseguir fazer com que as imagens se unissem por si só, demandando um sentido para agir feito a argamassa de sua coesão, no caso de Inner Garden eu vejo um caso diferente. As imagens da música não precisam de um sentido lógico para unir-las. Ao contrário, a imagem que sugere um sentido, um entendimento que vêm de algo para além da fronteira do consciente. Esse sentido se rende às belezas da imagem produzida. E se tem algo que eu acho belo nesta música, é a imagem que ela produz no teatro de meus sonhos.

Finalmente, creio que uma forma diferente de interpretá-la possa ser a seguinte: não proporei significados escondidos mas deixar-me-ei levar pela música e comporei um curto conto que possa trazer à frente esta imagem magnífica que parece surgir quando ouço tal música. Falei aqui do surrealismo e da escrita automática proposta pelo Sr. Breton, mas não creio que ela venha a ser o ideal para esta analise já que tal técnica parece ter por objetivo a criação de uma imagem – que é justamente o que já o é a música. Apenas queremos realçar esta mesma imagem. Claro, não há como não ter certo nível de automatismo na escrita, mas não levaremos a extremos. Creio que voltaremos a este assunto na próxima oportunidade, por parecer conter material relevante para estas analises.

Portanto, eis a letra da música e, logo em seguida, apresento o conto.

Inner Garden

King Crimson

(i)

Autumn has come to rest
In her garden
Come to paint the trees with emptiness
And no pardon
So many things have come undone
Like the leaves on the ground
And suddenly she begins to cry
But she doesn’t know why
Heavy are the words that fall through the air
To burden her shoulders
Caught up in the trees
Her soliloguy,
“don’t leave me alone”

(ii)

Rome now comes to sit
In her garden
Mingling the breeze with memories
Of a time when
There was a room in pale yellow hues
Her room with a view
Where love made a bed of happiness
In muslin and lace
Sweet is the voice from far away
That speaks sotto voce and
Is lingering there in the golden air
To quiet the day.

***

I

O dia amanhecia tedioso mais uma vez no jardim. As poucas plantas que ali ainda residiam já pareciam conformadas com a pouca luz que passava por entre as espessas e branquíssimas nuvens – se é que uma planta pode “morar”, já que não escolhe aonde sua semente primordial virá fatalmente a cair, mas tão pouco nós que, junto às plantas, só temos a diferença de poder um dia mudar de local, mas nunca mudamos. Aquelas plantas, no entanto, não tinham muito escolha. Poderiam muito bem alçar suas raízes do solo, as maiores como colossos de épocas que o medo tornou esquecidas, as menores como pequenos animais rastejantes e horrendos, sim, poderiam. Mas elas provavelmente sabiam (podem saber?) que não haveria diferença no novo local onde, ao enterrar as diversas raízes em busca dos gloriosos minérios, “morariam”.

Pois o Jardim é tudo que há. Por mais que suas sementes voem, não há solo que vá além do jardim. Disto sabem as plantas.

Mas hoje elas são poucas. A grama é predominante. Algumas árvores de maior porte aqui e ali se empoleiram no vasto campo que, na maior parte da linha visual, se estende em leves ondulações até o horizonte exceto por um lado, onde abruptamente parece existir uma parada na camada verde e dourada da grama. Ali, se alguém conseguir chegar neste ponto, existe um precipício improvável que, tal qual os campos do jardim, parece se estender de um lado a outro, criando uma imensa muralha rochosa, visível apenas até onde uma combinação de espessas nuvens e extrema distancia faz impossível de ver além. Um pouco abaixo da queda do precipício, nada se via senão mais nuvens, velozmente deslizando pela encostas do desfiladeiro. Era impossível ver abaixo dele, se é que havia algo ali.

Na beirada do precipício havia uma pequena estrutura feita de pedras trabalhadas. Vista de longe, parecia certamente uma casa muito antiga que já vira mais invernos que seus construtores. Mas esta ilusão era desfeita rapidamente se lhe fosse permitido chegar perto. Não passava de certo numero de arcos de pedra e pilhas de pedras de vários formatos geométricos. Estavam tão próximos uns dos outros que formavam corredores entre eles, sem teto algum. Não existia qualquer outro tipo de decoração senão o incrível numero de plantas que, num esplêndido exemplo de ex nihilo, pareciam crescer nas diversas pedras, sem contato algum com o solo, o que deixava mais extraordinário ainda a abundância e variedade das plantas que ali havia, num espaço tão pequeno (a estrutura toda devia ter o tamanho de uma casa média). Eram tantos os tipos de folha e flor que, por vezes, as colunas ficavam cobertas por elas e conseguiam mesmo se conectar com as outras colunas, criando algumas vezes pedaços de paredes ou tetos, tudo feito com folhagem. Lá morava uma mulher, entre as plantas e as ruínas.

II

Se o dia amanheceu tedioso, como descrito no início do conto, era somente por que ela estava lá para sentir e remoer o tédio. As plantas, se tem algo que pareça com tédio, não demonstram-no e parecem muitíssimo se contentar com o nascer do sol todos os dias, mesmo aquele do jardim, de luz amarelada e pálida. Ela não tinha rosto, no lugar, apenas uma placa de carne sem formato definido. Mas a falta de olhos ou qualquer outro órgão que tivesse alguma função remotamente próxima não conseguia evitar que ela se sentisse enfada pela quase constante paisagem do jardim.

“Quase constante”, ela meditou brevemente enquanto caminhava por entre um dos arcos de pedra. Dobrou, em seguida, por uma pedra de formato triangular e se viu diante da planície sem fim. Sentou em uma rocha que parecia meio deslocada da construção toda e esperou. “Quase”, sussurrou sem qualquer ruído, sem qualquer boca. Mas antes que ela pudesse investigar que idéia se escondia por detrás daquele pensamento, ela viu a figura alta e distinta de uma pessoa que surgia de uma das pequenas ondulações da terra. As visitas eram sempre esperadas, apesar de nunca respeitarem horários ou agendas. Vinham quando tinham que vir e isso, às vezes, era mais demorado que se esperava ou então vinham tão rápido quanto um pensamento fugaz escapa da consciência.

Apesar da constante tristeza solitária que era natural do jardim, a chegada de visitas trazia pouco alívio para o estado das coisas ali. Muito pelo contrário, elas traziam consigo as memórias de um tempo já passado. O conteúdo destas ditas memórias tão pouco importam. O seu único aspecto importante é o de que são um indicie de todas as coisas que não mais vão voltar, de outras memórias que vieram muito antes e que só tinham vivência, agora, na sua memória.

Ela se levantou e andou em direção à pessoa. Vestia um longo traje branco, tal qual aqueles que as jovens atenienses vestiam em dias de festa. O vento urrava pela planície e a grama ondulava em padrões rítmicos, acompanhado a melodia que o vento criava quando silvava por entre os pilares de pedra. Apesar disso, o seu vestido não demonstrava sinais algum de que estava sendo atingido por brisa qualquer. Ao invés de se agitar no ar, caia pesadamente sobre o seu corpo como se esperaria num dia de calmaria, revelando o formato dos seus ombros finos e delicados e denunciando a presença de seios firmes e joviais. Mas se a dama de branco tinha características peculiares, o visitante não pareceu notar-lhe a estranheza.

O visitante vestia uma manta branca que chegava ao meio da coxa. Por cima desta, uma armadura de bronze adornava o peito. Era dividida em camadas, como escamas de peixe, mas cada camada tinha formato retangular e era presa uma à outra por um feixe de couro. Cada segmentação trazia milhares de pequenas escritas, a maioria ilegível, pois a armadura mostrava grandes sinais de desgaste e ora trechos inteiros de ferrugem deixavam uma grande parte do texto impossível de ler, ora pequenos buracos trincavam partes da armadura, omitindo partes da leitura. Um pequeno trecho podia ser lido na parte inferior. Dizia:

“Para Marcus Caelius, filho de Titus, do distrito de Lemonian, vindo de Bologna, primeiro centurião da décima oitava legião. Cinqüenta e três anos. Ele pereceu no desastre de Varian. Que seus ossos sejam depositados neste monumento, se achados…”

Trajava um elmo dourado com proteção nasal, que era adornado por inscrições e runas decoradas no metal. Seus olhos permaneciam escondidos pelo elmo, mas o cabelo longo e negro escapava pela parte de trás do elmo e o que se via da face, parecia denotar origem certa origem huna, pela sua tez morena. Um mestiço, um meio-bárbaro. Trazia o seu gládio no cinto enferrujado. A bainha era dourada e continha o retrato em alto relevo de alguma pessoa. Mas a espada lá dentro estava enferrujada.

Encontraram-se a meio caminho de nada. O centurião era um resquício de orgulho perdido e mal-tratado. Os ombros caídos e a coluna que vergava como se quisesse quebrar pareciam pedir clemência. Agora que estavam um em frente ao outro, parecia não saber o que dizer, o que fazer. Estava perdido e cansado. “Onde estão os outros”? Todos já se foram, só resta a mim.

Ela então gesticulou para que olhasse ao seu redor e, ao fazê-lo, notou que o campo era salpicado pelo que pareciam ser pequenas casas de pedra. Mas ele sabia que não eram casas, mas outras moradas, só que estas abandonadas, suas colunas caídas e seus habitantes já esquecidos. Estavam ambos desolados, agora. Odeio olhar para elas, geralmente faço tudo que posso para não olhar. Mas não há como, sempre vem alguém que me faz lembrar delas.

“E agora?”

Sem perceber, ambos já estavam andando em direção a morada dela. Enquanto andavam, ela o escutava enquanto falava sobre todas as coisas que logo, seriam coisa alguma. A fazia lembrar dos outros centuriões que haviam vindo no passado. Conseqüentemente, também a lembrava daqueles outros que, tal qual ela, receberam-nos no passado. Eram memórias estranhas, pois não parecia combinar com o que era o jardim. E o jardim sempre fora assim: desolado. Ela e o abismo, a mais tempo que ela poderia tentar lembrar. Ainda assim, ela sentia falta dos outros – como se um dia houvesse conhecido-os de fato. Mas disso não tinha certeza.

Recorda-se também de uma época em que o jardim possuía flores que habitavam além de suas múltiplas moradas. Muitas, espalhadas pelos campos onde hoje só a grama resistiu. Tinha certeza que nunca iria saber se a lembrança era apenas um delírio criado pela solidão ou se era uma verdade embaralhada pelo tempo indizível que estava ali. As flores não deixam fosseis, afinal. Chegamos.

“E agora?”

Apontou para o gládio. Ele desembainhou-o, trazendo a tona a lamina decrépita, como se deixada ao fundo do mediterrâneo por vários séculos, e só por um milagre não se partiu em duas quando saiu da bainha. Me entregue.

Pegou a lamina e deixou o centurião para trás, no centro da morada. Caminhou por entre algumas colunas até achar uma pedra, de formato remotamente circular. Conseguia ouvir a voz do centurião ao fundo, agora um lamúrio agora cada vez mais horrendo e desesperado. Ficava apenas repetindo:

Omnia mutantur nihil interit! Omnia mutantur nihil interit!

Mas já não prestava atenção nisso. Depositou o gládio sob a pedra circular. Logo, como se um interruptor invisível tivesse sido acionado, ambos gládio e pedra haviam se transformado num punhado de pequenos pregos, que ela enterrou no mesmo lugar. Os apelos do centurião haviam parado no mesmo instante. Ela sabia que ele não estava mais lá. Em tempos passados, ela iria averiguar que ele realmente havia deixado a morada, mas ela sabia que era uma atitude tola. Só traria amargor, afinal. Era recomendável fingir que não havia acontecido, mas isto era também tolice. O centurião havia deixado o que era de pior seu. E é minha função receber tudo isto.

Saiu da morada e sentou na pedra deslocada. Esperou mais um pouco.

III

Certa vez, voltou sua atenção para o precipício. Lhe pareceu que ficou uma eternidade a contemplar as nuvens no seu eterno rebuliço, sendo levadas pelo vento que ela nunca fora capaz de sentir. Teve um ímpeto de curiosidade e se jogou em direção ao abismo. Flutuou no ar por um tempo, indecisa se era o melhor a fazer. Finalmente deixou o corpo se precipitar por entre as nuvens densas e perdeu a noção de si. Caiu por um bom tempo, lembrando de tantas coisas quanto poderiam haver e finalmente chegou ao chão, virando uma poça de sangue e ossos.

Não era tão bonito quanto uma semente de dente-de-leão, mas lhe ocorreu que servia o mesmo propósito. Não poderia escolher onde “moraria” no fim, mas sabia que este era o menor dos problemas. Lhe importava apenas a mudança. Sequer lhe passou pela cabeça que poderia pousar justamente no mesmo local de onde havia pulado.

Não existe nada além do jardim, como o sabem as plantas.