Psicodélica


Foraclusão
maio 22, 2009, 12:53 pm
Filed under: Nerd, Outros

Toda criança teve, de uma certa forma, momentos nas quais se sentia num mundo ao qual julgava místico, fantástico, permeado pelas fantasias típicas das crianças: Achava que havia monstros abaixo do lençol, aglutinava travesseiros na forma de uma caverna e considerava-o castelo inexpugnável contra as forças do mal, considerava o pequeno pedaço de pau a própria Exacalibur renascida, enterrada na caixa de brinquedos, que faria papel da rocha mística. Coisas de criança, afinal…

Não posso dizer que não passei por isso também. Óbvio que sempre fantasiava sobre todas as coisas que conseguia ao meu redor. Até hoje lembro de como as sujas paredes do meu antigo prédio me eram como as paredes de uma antiga pirâmide asteca: Inexploradas, misteriosas.  Suas escadas um território proibido, donde os mais velhos viriam, mais tarde, com historias que excediam qualquer experiência que eu já tinha passado.

Tudo era novidade.

Mas eu tinha uma triste tendência, uma impressão que sempre deixava uma marca indelével em todas minhas memórias. Eu acreditava em minhas fantasias – tinha fé total na veracidade delas – mas o meu papel nelas sempre foi a de, no maximo, um mero observador, frustrado, incapaz de participar presencialmente daquelas historias. Atrás da porta sempre fechada que existia ao lado do refeitório da escola existia uma escada para algum lugar, um lugar maravilhoso – mas eu bem sabia que eu nunca poderia entrar ali. Era desse jeito que eu me sentia. De fora.

E fazia um bom tempo que eu não me sentia explicitamente assim, apesar de que eu ainda ache que tudo que eu faço hoje em dia tem uma certa reminiscência do modelo perceptivo daquela época. Mas, ora, outra vez eu me senti dessa forma dia desses e não pude deixar de notar o desconforto com a coisa toda.

Foi durante o ensaio do Coral do BASA, enquanto ensaiávamos a Ave Maria de Gounod que, outra vez, me vi de fora de algo que eu fantasiava. O coral estava disposto à frente da regente, que balançava seus braços e lançava por muitas vezes olhares carrancudos a um ou outro infeliz que desafinava naqueles lá sustenidos altíssimos que a música apresentava. Ao lado dela, de frente para todo o coral, estavam também o Tenor e Soprano solista, apoiados pela pianista que ensaiava conosco ali também.

Então, parado ali, cantando em uníssono com todo o coral a linha das contra-alto – o coral não havia agüentado o arranjos para quatro vozes, reduzindo todos os naipes a um só – eu via o limite. A separação entre eu e o que eu fantasiava todos os dias. Ali estavam os músicos, olhando para nós, esperando que fizéssemos tudo certo, e as pessoas comuns, torcendo para que suas performances agradassem o julgo dos músicos.

Eu, que de uma certa forma sou muito orgulhoso pelas qualidades musicais que obtive através dos anos (não sem uma certa dificuldade), me via imerso na massa amorfa das pessoas que não entendiam de sustenidos, achavam as cinco mágicas linhas do pentagrama difíceis demais para se aprender e não entendiam as maravilhas da polifonia vocal. Eu achava que sabia dessas coisas, mas eu não sei, afinal.

E, pensando agora, o pensamento que me ocorreu naquele momento foi não só humilhante, mas bem cafona: Lá estavam os quatro anjos que, com muita dedicação e paciência, tentavam ensinar meros mortais os dons da música. Traziam de além mar conhecimentos impares que dividiam em parte conosco, falavam a linguagem das notas musicais e liam suas partituras como se leria em voz alta um texto a uma platéia. Sem hesitação, sem erros. Eu, em minha arrogância, queria ser um daqueles seres místicos, mas eu não era. Era apenas um tolo. Via-os flutuar no frenesi musical enquanto que eu me esforçava para cantar o lixo de uma melodia em uníssono.

 Eram eles e nós.

E mais uma vez eu sentia o incomodo sentimento de que eu iria para casa e eles iriam para algum outro lugar – talvez aquela mesma porta ao lado do refeitório cujo interior eu apenas sonhava quando criança. Iriam até ela, abririam-na e me deixariam de fora, esmurrando-a, imaginando por que eu nunca poderia entrar ali. Por que eu nem sequer saberia onde ela levava.

As coisas não mudam mesmo. Coisas de criança… Ou como diria Lacan: “A verdade tem estrutura de ficção.”

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Medo
maio 6, 2009, 2:02 am
Filed under: Uncategorized

 

medowael

 

E junto com as primeiras trombetas do apocalipse, os mortos ganharam uma vida impura e levantaram de seus tumulos e mausoléus – ou pelo menos entraram no msn rapidamente.

(Sim, piada interna)