Psicodélica


Análises Parte 2 – Inner Garden
janeiro 17, 2011, 6:55 pm
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Continuando a série de posts com a interpretação de duas músicas do King Crimson, hoje trataremos da segunda, chamada Inner garden que é dividida no CD Thrak em partes I e II. Eu poderia aplicar o mesmo conceito aplicado à primeira música (One Time) de desvendar símbolo por símbolo (o que quer dizer, a priori, transformar a música numa série de símbolos interpretáveis e então ir, um a um, desvendando o seu significado), mas creio que uma técnica diferente possa ser utilizada à música em questão por uma série de fatores que compartilho aqui com vocês.

Na verdade eu proponho mais que uma mudança no método pelo qual podemos entender um pretenso significado para esta música. Gostaria de propor nada menos que o oposto disto, uma interpretação que não busca um significado, mas a sua antítese, um não-entendimento da música para que, mesmo ao custo de uma aparente não-apreensão do valor da música, possamos chegar a uma construção diferente daquela que se espera da razão ilusória das leis conscientes.

Que diabos eu acabei de falar, não é?

Só será possível o entendimento da questão revelando o meu recente interesse pela estética Surrealista, que já conhecia através da obra clássica de Salvador Dalí, mas que só me foi apresentada “formalmente” pelo meu colega Bendelak, um companheiro psicanalítico com o qual estudo algumas coisa, incluindo o gênero em questão. Disse “formalmente”, pois ele, entre muitas coisas, me apresentou os trabalhos de André Breton e a sua escrita automática, que são o fundamento da estética surrealista.

Não quero me aprofundar na questão surrealista, exceto em um ponto: a valorização da cena que o surrealista opera. Breton fala no “Manifesto Surrealista” que a imaginação é a única forma pela qual se pode adivinhar o que poderia ser. Mas a interdição ao sujeito – interdito social – o impele a trancafiá-la, enjaular-la em prol de um bem-estar fictício. Para o surrealista, a produção que transgride a forma e, num sentido aparente, mesmo a lógica da estrutura narrativa apenas impele o sujeito a sabotar estas mesmas barreiras sociais impostas às maravilhas imagéticas que estão atrás da cortina de ferra da mente. Em miúdos, uma cena – por mais que não pareça fazer sentido – vale mais que mil palavras.

Isto me pareceu extremamente conveniente. Em todas as manifestações artísticas que eu tentei realizar, este sempre foi um conceito que carreguei comigo, apesar de nunca ter me dado conta disso até pouco tempo atrás. A imagem, a cena é tudo! Faço pequenas regressões a vários momentos em minha vida a confirmar que essa reverência ao primado da cena, a busca por ela. Mas coloquemos aqui a coleira no cão psicanalítico das associações livres. Isto não é sobre mim, afinal. Ainda.

E, por fim, chegamos ao que isso tem haver com a música de fato. Àqueles que me seguiram até aqui, congratulo-os. Foi como ter sido levado a um destino próximo através do hemisfério errado, mas talvez valha a pena. Eis que a música Inner Garden (e vou me referir a ela como uma só, unindo as suas duas partes, por enquanto) me sugere algo terrivelmente diferente da música anterior. Se a primeira parecia clamar por um sentido às imagens que propunha, por algo que me parece uma falha em conseguir fazer com que as imagens se unissem por si só, demandando um sentido para agir feito a argamassa de sua coesão, no caso de Inner Garden eu vejo um caso diferente. As imagens da música não precisam de um sentido lógico para unir-las. Ao contrário, a imagem que sugere um sentido, um entendimento que vêm de algo para além da fronteira do consciente. Esse sentido se rende às belezas da imagem produzida. E se tem algo que eu acho belo nesta música, é a imagem que ela produz no teatro de meus sonhos.

Finalmente, creio que uma forma diferente de interpretá-la possa ser a seguinte: não proporei significados escondidos mas deixar-me-ei levar pela música e comporei um curto conto que possa trazer à frente esta imagem magnífica que parece surgir quando ouço tal música. Falei aqui do surrealismo e da escrita automática proposta pelo Sr. Breton, mas não creio que ela venha a ser o ideal para esta analise já que tal técnica parece ter por objetivo a criação de uma imagem – que é justamente o que já o é a música. Apenas queremos realçar esta mesma imagem. Claro, não há como não ter certo nível de automatismo na escrita, mas não levaremos a extremos. Creio que voltaremos a este assunto na próxima oportunidade, por parecer conter material relevante para estas analises.

Portanto, eis a letra da música e, logo em seguida, apresento o conto.

Inner Garden

King Crimson

(i)

Autumn has come to rest
In her garden
Come to paint the trees with emptiness
And no pardon
So many things have come undone
Like the leaves on the ground
And suddenly she begins to cry
But she doesn’t know why
Heavy are the words that fall through the air
To burden her shoulders
Caught up in the trees
Her soliloguy,
“don’t leave me alone”

(ii)

Rome now comes to sit
In her garden
Mingling the breeze with memories
Of a time when
There was a room in pale yellow hues
Her room with a view
Where love made a bed of happiness
In muslin and lace
Sweet is the voice from far away
That speaks sotto voce and
Is lingering there in the golden air
To quiet the day.

***

I

O dia amanhecia tedioso mais uma vez no jardim. As poucas plantas que ali ainda residiam já pareciam conformadas com a pouca luz que passava por entre as espessas e branquíssimas nuvens – se é que uma planta pode “morar”, já que não escolhe aonde sua semente primordial virá fatalmente a cair, mas tão pouco nós que, junto às plantas, só temos a diferença de poder um dia mudar de local, mas nunca mudamos. Aquelas plantas, no entanto, não tinham muito escolha. Poderiam muito bem alçar suas raízes do solo, as maiores como colossos de épocas que o medo tornou esquecidas, as menores como pequenos animais rastejantes e horrendos, sim, poderiam. Mas elas provavelmente sabiam (podem saber?) que não haveria diferença no novo local onde, ao enterrar as diversas raízes em busca dos gloriosos minérios, “morariam”.

Pois o Jardim é tudo que há. Por mais que suas sementes voem, não há solo que vá além do jardim. Disto sabem as plantas.

Mas hoje elas são poucas. A grama é predominante. Algumas árvores de maior porte aqui e ali se empoleiram no vasto campo que, na maior parte da linha visual, se estende em leves ondulações até o horizonte exceto por um lado, onde abruptamente parece existir uma parada na camada verde e dourada da grama. Ali, se alguém conseguir chegar neste ponto, existe um precipício improvável que, tal qual os campos do jardim, parece se estender de um lado a outro, criando uma imensa muralha rochosa, visível apenas até onde uma combinação de espessas nuvens e extrema distancia faz impossível de ver além. Um pouco abaixo da queda do precipício, nada se via senão mais nuvens, velozmente deslizando pela encostas do desfiladeiro. Era impossível ver abaixo dele, se é que havia algo ali.

Na beirada do precipício havia uma pequena estrutura feita de pedras trabalhadas. Vista de longe, parecia certamente uma casa muito antiga que já vira mais invernos que seus construtores. Mas esta ilusão era desfeita rapidamente se lhe fosse permitido chegar perto. Não passava de certo numero de arcos de pedra e pilhas de pedras de vários formatos geométricos. Estavam tão próximos uns dos outros que formavam corredores entre eles, sem teto algum. Não existia qualquer outro tipo de decoração senão o incrível numero de plantas que, num esplêndido exemplo de ex nihilo, pareciam crescer nas diversas pedras, sem contato algum com o solo, o que deixava mais extraordinário ainda a abundância e variedade das plantas que ali havia, num espaço tão pequeno (a estrutura toda devia ter o tamanho de uma casa média). Eram tantos os tipos de folha e flor que, por vezes, as colunas ficavam cobertas por elas e conseguiam mesmo se conectar com as outras colunas, criando algumas vezes pedaços de paredes ou tetos, tudo feito com folhagem. Lá morava uma mulher, entre as plantas e as ruínas.

II

Se o dia amanheceu tedioso, como descrito no início do conto, era somente por que ela estava lá para sentir e remoer o tédio. As plantas, se tem algo que pareça com tédio, não demonstram-no e parecem muitíssimo se contentar com o nascer do sol todos os dias, mesmo aquele do jardim, de luz amarelada e pálida. Ela não tinha rosto, no lugar, apenas uma placa de carne sem formato definido. Mas a falta de olhos ou qualquer outro órgão que tivesse alguma função remotamente próxima não conseguia evitar que ela se sentisse enfada pela quase constante paisagem do jardim.

“Quase constante”, ela meditou brevemente enquanto caminhava por entre um dos arcos de pedra. Dobrou, em seguida, por uma pedra de formato triangular e se viu diante da planície sem fim. Sentou em uma rocha que parecia meio deslocada da construção toda e esperou. “Quase”, sussurrou sem qualquer ruído, sem qualquer boca. Mas antes que ela pudesse investigar que idéia se escondia por detrás daquele pensamento, ela viu a figura alta e distinta de uma pessoa que surgia de uma das pequenas ondulações da terra. As visitas eram sempre esperadas, apesar de nunca respeitarem horários ou agendas. Vinham quando tinham que vir e isso, às vezes, era mais demorado que se esperava ou então vinham tão rápido quanto um pensamento fugaz escapa da consciência.

Apesar da constante tristeza solitária que era natural do jardim, a chegada de visitas trazia pouco alívio para o estado das coisas ali. Muito pelo contrário, elas traziam consigo as memórias de um tempo já passado. O conteúdo destas ditas memórias tão pouco importam. O seu único aspecto importante é o de que são um indicie de todas as coisas que não mais vão voltar, de outras memórias que vieram muito antes e que só tinham vivência, agora, na sua memória.

Ela se levantou e andou em direção à pessoa. Vestia um longo traje branco, tal qual aqueles que as jovens atenienses vestiam em dias de festa. O vento urrava pela planície e a grama ondulava em padrões rítmicos, acompanhado a melodia que o vento criava quando silvava por entre os pilares de pedra. Apesar disso, o seu vestido não demonstrava sinais algum de que estava sendo atingido por brisa qualquer. Ao invés de se agitar no ar, caia pesadamente sobre o seu corpo como se esperaria num dia de calmaria, revelando o formato dos seus ombros finos e delicados e denunciando a presença de seios firmes e joviais. Mas se a dama de branco tinha características peculiares, o visitante não pareceu notar-lhe a estranheza.

O visitante vestia uma manta branca que chegava ao meio da coxa. Por cima desta, uma armadura de bronze adornava o peito. Era dividida em camadas, como escamas de peixe, mas cada camada tinha formato retangular e era presa uma à outra por um feixe de couro. Cada segmentação trazia milhares de pequenas escritas, a maioria ilegível, pois a armadura mostrava grandes sinais de desgaste e ora trechos inteiros de ferrugem deixavam uma grande parte do texto impossível de ler, ora pequenos buracos trincavam partes da armadura, omitindo partes da leitura. Um pequeno trecho podia ser lido na parte inferior. Dizia:

“Para Marcus Caelius, filho de Titus, do distrito de Lemonian, vindo de Bologna, primeiro centurião da décima oitava legião. Cinqüenta e três anos. Ele pereceu no desastre de Varian. Que seus ossos sejam depositados neste monumento, se achados…”

Trajava um elmo dourado com proteção nasal, que era adornado por inscrições e runas decoradas no metal. Seus olhos permaneciam escondidos pelo elmo, mas o cabelo longo e negro escapava pela parte de trás do elmo e o que se via da face, parecia denotar origem certa origem huna, pela sua tez morena. Um mestiço, um meio-bárbaro. Trazia o seu gládio no cinto enferrujado. A bainha era dourada e continha o retrato em alto relevo de alguma pessoa. Mas a espada lá dentro estava enferrujada.

Encontraram-se a meio caminho de nada. O centurião era um resquício de orgulho perdido e mal-tratado. Os ombros caídos e a coluna que vergava como se quisesse quebrar pareciam pedir clemência. Agora que estavam um em frente ao outro, parecia não saber o que dizer, o que fazer. Estava perdido e cansado. “Onde estão os outros”? Todos já se foram, só resta a mim.

Ela então gesticulou para que olhasse ao seu redor e, ao fazê-lo, notou que o campo era salpicado pelo que pareciam ser pequenas casas de pedra. Mas ele sabia que não eram casas, mas outras moradas, só que estas abandonadas, suas colunas caídas e seus habitantes já esquecidos. Estavam ambos desolados, agora. Odeio olhar para elas, geralmente faço tudo que posso para não olhar. Mas não há como, sempre vem alguém que me faz lembrar delas.

“E agora?”

Sem perceber, ambos já estavam andando em direção a morada dela. Enquanto andavam, ela o escutava enquanto falava sobre todas as coisas que logo, seriam coisa alguma. A fazia lembrar dos outros centuriões que haviam vindo no passado. Conseqüentemente, também a lembrava daqueles outros que, tal qual ela, receberam-nos no passado. Eram memórias estranhas, pois não parecia combinar com o que era o jardim. E o jardim sempre fora assim: desolado. Ela e o abismo, a mais tempo que ela poderia tentar lembrar. Ainda assim, ela sentia falta dos outros – como se um dia houvesse conhecido-os de fato. Mas disso não tinha certeza.

Recorda-se também de uma época em que o jardim possuía flores que habitavam além de suas múltiplas moradas. Muitas, espalhadas pelos campos onde hoje só a grama resistiu. Tinha certeza que nunca iria saber se a lembrança era apenas um delírio criado pela solidão ou se era uma verdade embaralhada pelo tempo indizível que estava ali. As flores não deixam fosseis, afinal. Chegamos.

“E agora?”

Apontou para o gládio. Ele desembainhou-o, trazendo a tona a lamina decrépita, como se deixada ao fundo do mediterrâneo por vários séculos, e só por um milagre não se partiu em duas quando saiu da bainha. Me entregue.

Pegou a lamina e deixou o centurião para trás, no centro da morada. Caminhou por entre algumas colunas até achar uma pedra, de formato remotamente circular. Conseguia ouvir a voz do centurião ao fundo, agora um lamúrio agora cada vez mais horrendo e desesperado. Ficava apenas repetindo:

Omnia mutantur nihil interit! Omnia mutantur nihil interit!

Mas já não prestava atenção nisso. Depositou o gládio sob a pedra circular. Logo, como se um interruptor invisível tivesse sido acionado, ambos gládio e pedra haviam se transformado num punhado de pequenos pregos, que ela enterrou no mesmo lugar. Os apelos do centurião haviam parado no mesmo instante. Ela sabia que ele não estava mais lá. Em tempos passados, ela iria averiguar que ele realmente havia deixado a morada, mas ela sabia que era uma atitude tola. Só traria amargor, afinal. Era recomendável fingir que não havia acontecido, mas isto era também tolice. O centurião havia deixado o que era de pior seu. E é minha função receber tudo isto.

Saiu da morada e sentou na pedra deslocada. Esperou mais um pouco.

III

Certa vez, voltou sua atenção para o precipício. Lhe pareceu que ficou uma eternidade a contemplar as nuvens no seu eterno rebuliço, sendo levadas pelo vento que ela nunca fora capaz de sentir. Teve um ímpeto de curiosidade e se jogou em direção ao abismo. Flutuou no ar por um tempo, indecisa se era o melhor a fazer. Finalmente deixou o corpo se precipitar por entre as nuvens densas e perdeu a noção de si. Caiu por um bom tempo, lembrando de tantas coisas quanto poderiam haver e finalmente chegou ao chão, virando uma poça de sangue e ossos.

Não era tão bonito quanto uma semente de dente-de-leão, mas lhe ocorreu que servia o mesmo propósito. Não poderia escolher onde “moraria” no fim, mas sabia que este era o menor dos problemas. Lhe importava apenas a mudança. Sequer lhe passou pela cabeça que poderia pousar justamente no mesmo local de onde havia pulado.

Não existe nada além do jardim, como o sabem as plantas.

 



Duas Análises de Música – Sobre a Interpretação da Música
janeiro 5, 2011, 5:01 pm
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Hoje, numa situação especial, gostaria de apresentar uma interpretação para duas músicas (três, na verdade, mas chegaremos nisso) cujos temas e desenvolvimentos me parecem dignos de uma analise mais depurada. O fascínio que ambas as músicas exercem sobre mim parecem adivir de alguma fonte que não consigo muito bem delimitar, imagino que talvez destrinchando ambas as músicas – feito porcos no açougue – me ajude a um entendimento pleno do por que estas músicas têm um efeito um tanto que hipnotizador sobre mim. Ou não. Em frente…

Thrak Cover

Thrak Cover

 

As músicas são One Time e Inner Garden (I e II) do disco Thrak da banda King Crimson. Acho que podemos falar um pouco da banda e fazer uma rápida análise da estrutura da composição de ambas as músicas. O KC (e assim irei me referir a eles, por pura preguiça) é uma das bandas de maior longevidade na história do rock progressivo, atuando desde os anos 60. A banda, fundada em Londres, passou por inúmeras reformulações durante sua historias, com quase duas dezenas de instrumentistas que já passaram pela banda. Neste CD especifico, temos um line-up de seis músicos que formam algo como uma dupla de trios.

Não vamos nos alongar aqui. Se você quiser mais informações sobre o KC, você pode encontrá-las na pagina deles na Wikipedia, clicando aqui.

Comecemos então por One Time, composição que me parece mais tranqüila para uma analise, tanto musical quanto do seu sentido. Sua estrutura harmônica é simples: Quatro acordes da tonalidade de Dó menor se alternam em um 6/8 constante. Existe um empréstimo modal no refrão (quando se usa um Sol maior, da tonalidade de Dó menor harmônica) e este é a única mudança tonal que a música oferece.

One Time não é de forma alguma uma música complexa. Bateria e baixo provem suporte solido e relativamente constante em sua forma para as guitarras que fazem o tema da música (que é um dedilhado que explora os acordes que se repetem durante a música toda). Eu poderia me arriscar e dizer que a força da música viria a reduzir-se na sua letra e apenas nesta, mas imagino que isso seria um tiro no pé cedo demais para minha analise. Posso deixar a parte polêmica para depois. Vamos à letra, portanto. Farei esta analise da seguinte forma: Apresento cada estrofe da letra e irei discutir cada uma com um comentário logo abaixo dela.

 

One Time
King Crimson

A música fala sobre desespero, basicamente. Frente à fragilidade humana e a hostilidade da vida, só basta ao sujeito levantar a mão de misericórdia, apelo este feito a um outro que nem sempre está disponível à nossa demanda e ao nosso sofrimento.

one eye goes laughing,
one eye goes crying
through the trials and trying of one life

É impossível não associar este primeiro parágrafo com a clássica imagem das máscaras do teatro. Estas são caracterizadas por duas máscaras, uma chorando e a outra rindo – mas existem muitas versões que condensam ambos os elementos em uma única mascara, cuja primeira metade apresenta as feições alegres e a segunda a triste.

Claro, é um parágrafo sobre de como a vida é formada desses dois pólos opostos: Felicidade, satisfação, desejo e, do outro lado da moeda, dor, frustração e morte. Mas creio haver aqui um elemento a mais da mascara: a sua anonimidade, a qual empresta ao personagem da música não só um caráter universal (como os antigos gregos usavam a mascara para retirar a individualidade do personagem para infligir maior identificação da platéia), mas também retira sua própria história, seu rosto e lhe joga no mundo onde a busca pela própria identidade geralmente podem ter resultados nada positivos ao sujeito.

Como diria Sören Kierkegaard, o desespero parece ter um motivo externo ao sujeito, mas apenas por um momento. O que viria a ser este desespero, por fim, é o horror de si próprio, de não suportar sua própria imagem especular. Esta mascara, portanto, denota o desespero do personagem, de ser o que é (mera imagem humana, sem individualidade ou historia própria). Mas teremos que fazer algumas associações com parágrafos posteriores para que este ponto tenha maior embasamento.

one hand is tied,
one step gets behind
in one breath we’re dying

O sujeito está preso por algo e, numa imagem improvável, o passo que o levaria a frente o leva para posições anteriores. Somos livres, afinal? O quanto eu não sou determinado por onde moro, com quem vivo e por quem me criou? Muitas vezes, somos tão alheios a nós mesmos que sequer notamos que andamos em círculos, damos passos falsos a frente e vivemos como que presos por algo.

E, de repente, morremos. Infelizes, geralmente.

i’ve been waiting for the sun to come up
waiting for the showers to stop
waiting for the penny to drop
one time

Começa o refrão. Este trecho em particular mostra uma súplica do personagem. Por ajuda, por melhores vidas, por redenção, qualquer coisa que pareça trazer alívio. Não nos interessa saber qual a enfermidade que aflige o sujeito aqui. O mal é existir e desse mal, todos os humanos buscam conforto. Aqui o personagem espera (e vem esperando há muito tempo, ao que parece) pelo sol nascente – símbolo natural de esperança, calor, que afugenta a escuridão.

Logo em seguida, vem um simbolismo que eu não consegui depurar em muita coisa. Que significa “Waiting for the showers to stop”? Realmente eu não consigo sequer ter idéia do que isso possa significar. Fica aqui o “umbigo” da interpretação, como diria Freud. Um ponto que eu não consigo ir muito além na interpretação.

Seguindo, o personagem termina esta estrofe falando que espera “o centavo cair” (numa tradução livre). Na tradução oferecida na Internet aparecia uma tradução de “penny” como sendo “orvalho”. Apesar de pesquisar sobre qualquer ocorrência desta palavra no sentido citado, não encontrei nada. Deduzo, portanto, que seja mais um caso de má tradução (não confiem na internet, rapazes). Considerando aqui a tradução “centavo” eu dou a seguinte interpretação para a imagem: Um mendigo. Este mendigo agoniza nas ruas, anda sujo e maltrapido, indefeso contra frio, calor, fome ou violência. O mínimo que ele pode esperar são os pequenos centavos, que caem da mão daqueles que podem dar para as suas. A relação de verticalidade aqui encontrada (aquele que recebe está com as mãos abaixo daquele que dá) não deve ser ignorada e demonstra o que o personagem, em situação desfavorável, espera: o mínimo de atendimento a uma necessidade humana de atenção, de ajuda.

and i’ve been standing in a cloud of plans
standing on the shifting sands
hoping for an open hand
one time

No parágrafo final, o apelo é substituído pelo personagem falando de sua posição, através de imagens bastante oníricas. Para estas, eu creio que o seguinte entendimento se encaixa na descrição que estamos fazendo aqui: O personagem se encontra em uma “nuvem de planos”, o que me parece ser as constantes maquinações que elaboramos para nossas vidas, todos os nossos planos que sonhamos. Mas a verdade é que todos acabam se tornando apenas isto, planos. Não se materializam, tornam-se como o éter que preenche o universo, uma nuvem que podemos ver, mas não tocar.

Prosseguindo, o personagem se diz parado em “areias que mudam” (tradução muito literal, talvez, do termo “shifiting sands”). Sem hesitar, eu digo que isto é também outra metáfora para a vida do sujeito, que se ergue sobre areia, mais um daqueles elementos que são quase incorpóreos, difíceis de agarrar e, no caso, que costumam desmoronar sobre os pés daqueles que muito confiam neles.

A música encerra com a frase “esperando por uma mão aberta” e a repetição do termo “uma vez”. E é o que se espera, afinal. Uma ajuda sincera – uma espera que já tem longa data e não tem fim definido. Pelo próprio termo “uma vez”, seria correto vir a pensar que seria pela primeira vez, já que o sujeito da música desvenda sua condição de desespero e solidão no mundo. Mas, para este sentimento, não existe ajuda. A espera é fútil e a música termina de forma a denunciar esta espera com um fade-out, ou seja, sem um fim definido.

Agora, chegando aqui ao fim da análise, me faço algumas perguntas: Poderia ser o sentido desta letra que tanto me atraiu? Mas como, se à primeira audição eu senti uma afinidade imensa na música, sem ter visto letra ou analisado qualquer coisa. Poderia a música comportar o sentido expresso na letra?

Bem, fiquemos com essas perguntas para o próximo post.



Barra Dupla
janeiro 3, 2011, 2:44 am
Filed under: Sarcasmo

 

Ano novo, né? Isso significa mais um ano aqui na costa deste pequeno site. São o que agora? 7 anos de blog? Isso sem contar o antigo Psicodélica, que precedeu este domínio. O WordPress mandou-me uma mensagem de ano novo, escrevendo um pouco sobre o ano de 2010 e, resumindo o que me disse, falou que o Psicodélica:

  • Teve 4800 visitas em 2010. isso aparentemente enche 12 747’s (em fogo e em rota de colisão com prédios comerciais, imagino)
  • teve 20 novos artigos (caralho, tudo isso? Eu devo ter escrito enquanto eu dormia)
  • Aparentemente o meu artigo mais popular foi o que eu falo de House (ou seja, um daqueles tópicos que não tem NADA HAVER com a coisa do site. Aliás, sobre o que é este blog, afinal de contas?)
  • O ano de 2010 foi, aparentemente, fantástico para o Psicodélica (e isso com direito a Saude-ometro do blog. Muito chique).

“Fantástico”?! Não sei se o termo se aplica. 4800 visitantes (praticamente o input mensal de um site médio, nada grandioso afinal, bem mixuruca) … quase 700 deles apenas por causa de uma artigo onde eu meramente citei o House.  o resto, sabe Javé. Devem ter procurado por “Sexo com a priminha” no Google e chegaram aqui, através de algum caminho tortuoso da trilha de bytes da internet. Se o ano não parece muito glorioso do ponto de vista numérico e estatístico, do ponto de vista da produção foi um desastre. Nunca fui bom escritor, nunca escrevi nada de muito interessante e, o que eu fazia mais ou menos, que era fazer as pessoas rirem, bem… nem isso eu tenho mais. 2010 foi o ano da escrita que tentou ser séria, mas foi apenas medíocre.

E para o autor, como foi 2010?

Que fiz? vejamos… me formei em psicologia, depois de um TCC tumultuoso e que não falava da minha área, de forma alguma. Foi o ano de aprender a gostar mesmo de Psicanálise e vislumbrar um futuro sem a música, como pesquisador ou clínico (ou fazendo saiba lá o que os psicanalistas fazem… magia negra, talvez). Fiz, no entanto, uma viagem capaz de mudar todo um paradigma sobre a profissão de músico (e, curiosamente, me fez vislumbrar uma vida como músico, um sonho de coisa) e sobre a minha vidinha tosca. Da mesma forma como essa mesma viagem foi uma das melhores coisas que já fiz na vida, ela tem sido um terrível fardo nas minhas costas suadas e curvadas, que agora não só enfrentam o calor e as dificuldades de viver em uma cidade mal urbanizada e administrada, mas também lutam contra as memórias de dois meses num local que, se não é melhor, ao menos combinava mais com os meus humores. Mais, 2010 foi o ano de notar o quanto o mundo e as pessoas (mesmo as próximas) são preconceituosas, mesmo com as pequenas coisas como o mero fato de ter um cabelo assim ou assado, de gostar disso ou daquilo. Outra vez, as memórias do tempo que passei na Europa servem como um contra-ponto cruel para a minha realidade. Mais que nunca, morar em Belém tem sido um fardo, uma prisão sem janelas.

E que será de 2011? Não sei, dessa vez, não fiz promessas de ano novo. Esse tipo de coisa, afinal, nunca funcionou comigo e sempre trazia consigo algo que me causava um certo cinismo e ceticismo. Não, deixe 2011 rolar. Mas tenho minhas esperanças, minhas expectativas para esse ano. Basta dizer, para fazer uma analogia cafona com o sistema de partitura, que espero que ele não seja um maldito ritornelo, conduzindo-me a um refrão que já durou tempo demais na minha vida. Que possa ser uma barra simples, uma marcação de que um tema foi deixado para trás, mas não abandonado, e sim retomado de forma mais criativa, com maiores coloridos, mudando um pouco o ar monótono e triste da composição até aqui.

Ou que seja uma barra dupla, e que acabe logo todas as coisas de uma vez. Ninguém gosta de músicas repetitivas e não sou eu que vou ficar repetindo pra sempre um tema chato. Composição ruim se joga no lixo – e dá caminho para uma folha novinha no caderno de partituras.

Um feliz 2011.