Psicodélica


fevereiro 10, 2009, 4:47 pm
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A noite sangrava névoa, chuva e todo tipo de porcaria que poderia cair do céus naquele dia. Os raios se digladiavam nos céus, seus urros pairavam sobre a cidade como um lembrete de que a noite iria se alongar por muitas horas, até mesmo para além do nascer do sol, caso aquela tempestade se mantivesse – como sem duvida o faria.

Mas este não era um problema meu.

Indiferente à chuva, eu desviava dos tonéis de lixo que sutilmente decoram a maioria das ruas, insensível ao ataque impiedoso da chuva às minhas costas. “Depois de se viver um tempo neste mundo, você acaba aprendendo que existem coisas piores que uma noite na chuva”, pensei com injustificado rancor. Minha vida não era ruim naquele momento. Muito pelo contrario.

Com um salário anual que flertava os seis dígitos, eu era um exemplo de sucesso – o que não necessariamente indica qualquer espécie de competência da minha parte, apesar de que esta era também uma virtude que eu possuía. Minha casa era uma referência de luxo e bom gosto na cidade – um conforto proporcionado por aquela que agora devia estar confortavelmente sob três camadas de cobertas na nossa cama de casal – e minha garagem era quase um templo para automaniacos locais.

E ainda assim, cá estava eu, na chuva. Obviamente algo estava errado. E eu sabia disso.

à temperatura ia drasticamente caindo a medida que eu ia me afastando do centro em direção à periferia. Progressivamente, as paredes perdiam cor e requinte, para ganharem infiltrações, buracos e as mais infames pichações. Os carros estacionados no passeio público eram agora apenas lembranças do que um dia foram ao saírem orgulhos da fábrica, enferrujados e inúteis como agora estavam.

Mas esses detalhes escapavam à minha percepção. Nem o frio ou o perigo de estar num dos bairros mais pobres e perigosos da cidade conseguiam quebrar a barreira criada pela minha obsessão em avistar o velho e quebrado letreiro de neom vermlho-rosa do Old Joe’s Caffe, o que não seria difícil, visto que já despontava o borro vermelho e piscante do letreiro, que ficava próximo a um dos poucos postes que funcionavam no bairro todo.

“Para uma luz amarelada e fraca como esta, ‘funcionar’ é um belo elogio”, reclamei em voz alta, parado logo embaixo da lâmpada, que retrucou com uma ou duas faíscas. As palavras se perderam na escuridão da noite, sejam abafadas pelo estrondo da chuva, ou pelo simples fato de que a rua estava deserta. Olhei a porta do Old Joe’s por alguns segundo, imóvel. Um luto pelas palavras sacrificadas naquela e em tantas outras noites.

Desperdiçar palavras era um hobby meu. Avancei através da chuva.

A janela única do Old Joe’s emitia uma luz pálida e esbranquiçada, que rapidamente deitou mão fria sobre meu rosto antes que eu entrasse com um ruído de pequenos sinos, que Frank insistia em colocar na porta para celebrar a entrada dos poucos clientes daquele muquifo. Compreensível. Desde que o filho pequeno dele morrera numa tentativa frustrada de assalto á sua casa, Frank havia começado a se apegar as pequenas coisas que tinha. E, se existia algo pequeno na vida de Frank, essa era a freguesia do seu pequeno bar.

Minha entrada decidida causou furor naqueles malditos sinos, chamando para min a atenção de uma mosca e talvez de duas baratas que espreitavam a decadente cozinha do bar. O Joe’s era uma espécie de pintura a óleo, imutável, irreversível, porem cada dia mais e mais desbotada: Seus dois ambientes, adornados com uma estranha seleção de quadros que iam desde Caravaggio até Dalli, formavam um mosaico sacro-bizzarro de elefantes voadores e cabeças decepadas. Algumas plantas artificiais que empestavam os cantos eram o mais próximo de “vida” que o bar tinha.

O ambiente mais interno era mais escuro e tinha uma mesa de bilhar que um dia deve ter sido usada para jogar bilhar. Hoje servia de cama para mais um infeliz cliente que havia perdido a noção do que bebia – junto com filha, mulher e casa, provavelmente. Historias tristes eram rotina por aqui, bem sabia-o eu e a empinada mesa de bilhar.

O ambiente mais externo, onde eu me encontrava, era mais iluminado (o que, de forma alguma, quer dizer que fosse bem-iluminado), possuía um pequeno palco no canto direito onde um trio de jazz vomitava alguns improvisos frenéticos em troca de algum trago de bebida quente. Também ostentava algumas cadeiras e mesas feitas do mesmo material do velho balcão de mogno, onde Frank já preparava o meu drink favorito. Não conversávamos, eu e Frank, e detestava o seu cheiro de álcool e suor mal lavado. Ele, por sua vez, parecia odiar o fato de que eu não exalava o mesmo odor que ele. Mas Frank sabia qual era meu drink preferido, e eu tinha as notas favoritas de Frank dentro do meu bolso. Nos dávamos bem.

Joguei meu casaco molhado no cabineiro ao lado da porta e apalpei meu bolso, na vã esperança de meus cigarros estarem minimamente secos. A cigarrilha parecia em bom estado. Do turbilhão de notas no qual o saxofonista estava mergulhado, de repente surge clara e nítida, de uma forma que poderia sobrepor até o furor dos da chuva e dos trovões lá fora, o tema de “Impressions”. Faz-me sorrir. Bom saxofonista. Bons cigarros. Todos secos.

Meus fósforos, ao contrario, estavam encharcados. Vá entender.

Não fazia diferença, ela tinha fogo. E já estava no bar, disso eu já sabia antes mesmo de entrar, antes mesmo da chuva começar. Até mesmo Coltrane, ao solfejar as notas de sua famosa música, já devia suspeitar. Precisávamos que ela estivesse aqui, tanto antes quanto durante nossas ausências, imóvel, parada e silenciosa. As vezes, tudo só faria sentido enquanto ela estivesse ali, sentada no balcão, olhos fixos na madeira, dedos imóveis, as pontas dos dedos suavemente repousados no largo corpo de whysky, corpo teso como uma flecha, mal-escondido por um vestido roxo escuro. Certamente, essa mulher tinha fogo. Sempre teve. Se o Old Joe’s tinha algum propósito, este era unicamente para que aquela mulher estivesse ali, naquele momento e em todos os outros. Fogo, eu precisava de fogo.

Avancei por entre as mesas do salão, meus movimentos eram instintivos, meus músculos já obedeciam outra razão. Sentei-me no balcão ao lado dela. Levantei o cigarro, num gesto mecânico. Um pequeno Zippo foi estendido à min, como se por puro reflexo. Enquanto eu ouvia a nicotina se retorcer sobre a pressão do fogo, subitamente, minha euforia havia desaparecido. Meus sentimentos, vontades, repentinamente desapareceram atrás da cortina de fumaça que eu criara ao tragar o cigarro. Meus olhos perderam o brilho e tudo havia voltado ao normal.

A banda já tocava outro tema quando, discretamente, Frank pôs o meu drink ao meu alcance no balcão. Ela me olhou, em busca de respostas – não como se pedisse por elas, mas exigia, intimidava. A única que eu tinha era uma pergunta, um código. Uma passagem para um destino incerto. Já havia me arriscado o bastante vindo aqui todos esses dias, escondido. Me perguntei porque não continuar, e na ausência dessa resposta, meus lábios se moveram automaticamente:

-Onde estão os manuscritos?

A banda já havia se calado a algum tempo. Frank me olhava completamente aturdido. Apenas ela sabia exatamente o que se passara. Não estavam surpresos com a minha pergunta – sequer a ouviram. Não creio nem mesmo ter chegado a pronunciar tais palavras, dado o estado do meu pulmão, perfurado. Da minha boca, afogada em sangue. Não, o que havia surpreendido a todos fora aquele tiro de um revolver calibre 0.32, disparado pelo bêbado da sala anterior, agora de pé, atrás de min, aparentando uma sobriedade muito maior que a minha.

Cai para trás e as cores já cinzentas do bar lentamente se transformaram em preto e branco, para então se tornarem apenas branco. Os rostos desapareciam na claridade intensa. Olhei para ela, enquanto minha respiração já dava sinais do inevitável. Olhei bem naqueles olhos negros e sem expressão, antes de tudo ficar preto. Noir.

Seguiu a banda ao próximo tema. O bêbado pegou meu drink, e saiu de mãos dadas com a mulher de roxo.

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Cefalexina e Nimesulida
fevereiro 2, 2009, 1:23 pm
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pustula2

Eis que nossas dores são como pequenas pústulas em nossas peles. Sequer tomamos parte de quando se aloja em nosso corpo, através de algum estranho elemento viral. Só nos damos conta que está presente quando já pulsa viva na epiderme, secretando líquidos pútridos, expondo nossa carne ao mundo. Destruindo tanto tecido quanto paz.

Curamo-na com a nossa vã ciência, entupimo-nos de drogas, agimos profililaticamente, tentando em vão separar causa e coisa. Fútil, pois logo renasce numa outra junta qualquer. Troca-se de poro capilar, mas a dor ainda é a mesma.

E, sabemos, é uma doença sazonal. Ela voltará um dia, atacará nossa delicada derme, apenas para mais uma vez sumir sem explicação, deixando para trás as marcas que odiaremos quando nús, defronte o espelho que nunca nos mente, e esconderemos com vergonha sob a nossa roupa quando próximos aos nossos pares, que escondem marcas semelhantes, e com similar ardor, escondem-nas do mundo. Todos escondemos nossas marcas.

E ficamos nessa expectativa, de quando ela vai voltar…