Psicodélica


Sonho Pós-Apocaliptico
junho 18, 2009, 2:49 pm
Filed under: Nerd, Outros

Correu por dentre os destroços do que era antes uma provável floricultura – havia um pequeno cartaz semi-destruido jogado num canto com uma caricatura de uma jovial e sorridente planta, muito convidativa, que parecia um dia ter sido o letreiro da frente da loja.

“Engraçado as coisas que a gente presta atenção quando perseguidos por assassinos, não?!”, pensou amargamente enquanto pulava por uma parede de samambaias super crescidas e emergiu em um imenso orquidário, cujas orquídeas chegaram a tamanhos absurdos, transformando aquele espaço numa mini-selva.

“E sem a ajuda daqueles malditos floricultores que me cobravam 20 penses por vaso. Safados”, resmungou em voz alta enquanto pulava mais uma janela, dessa vez para uma paisagem mais familiar:destroços de uma antiga área residencial. Pequenos prédios de menos de seis andares que sucumbiram e haviam criado complexos labirintos de destroços, seus antigos estacionamentos subterrâneos eram agora abrigos cobiçados para aqueles que sabiam onde achá-los.

Ziguezagueou por dentre os destroços de vários carros, pulou alguns imensos blocos de concreto e correu por uma estreita passagem, que dava em uma longa rampa que conduzia para um estacionamento subterrâneo. Já não ouvia mais o som das motos, mas não conseguia parar de se sentir perseguido – e bem sabia que, de fato, estava mesmo. Conhecia a japonesa e sabia que ela só desistiria dele quando estivesse morto.

“Japonesa” era uma mercenária com a qual já trabalhara antes, mas nunca se dera ao trabalho de saber seu nome, no Maximo chamando-a de “Lucy Thai”, uma antiga atriz pornô da época de quando ainda existia internet e se gabava de seu imenso acervo de pornografia – uns 3 terabytes, apenas de vídeos, coletados durante uma adolescência triste e melancólica – ela provavelmente não sabia da etimologia do nome, mas se não gostava da nomenclatura, nunca lhe havia dito e quando terminaram o serviço que estavam fazendo, achou que nunca mais a veria. Viva, pelo menos.

Portanto havia sido com surpresa quando, naquela manhã, havia “esbarrado” com aquele rosto oriental mais uma vez, apontando um singelo Canhão de Assalto Barret Osaka M100, capaz de atravessar um tanque como se fosse manteiga, apontado para a sua têmpora. “Um exagero só”, exclamaria depois para seus companheiros, casso sobrevivesse para isso. E era o que estava tentando fazer a três quilômetros, com muita dificuldade.

Mas havia chegado ao seu “esconderijo sujo e nojento”, como costumava se referir a ele. Agora mais parecia o Bangalô Presidencial do Beverly Hills Hotel, entupido de bebidas e mulheres. Correu a longa rampa descendente, dobrou depois de uma parede que prometia despencar à menor ofensa e chegou em um pequeno amontoado de caixa encostadas na parede, onde estacam duas pessoas estavam sentadas entres as pilhas de equipamento.

Havia sido burro o suficiente para sair sem uma arma naquele dia e mais burro ainda de depender agora de duas pessoas que conhecera no dia anterior para lhe defender de uma possível assassina japonesa equipada com um canhão móvel que matariam a todos eles mesmo que fosse simplesmente jogado em cima deles.

– Cacete, tem alguém atrás de mim, caralho – correu para trás de um pilastra próxima, onde sentou-se – porra, peguem as armas, caralho, e atirem nessa filha-da-puta, anda porra!

“Era um recorde em palavrões por sentença”, gabou-se. Era um homem simples, com pensamentos simples.

As duas figuras pareceram espantadas o bastante para piscar uma ou duas vezes. Um deles chegou a quase bocejar, mas numa manobra impressionante, transformara o bocejo numa tosse, seguida de uma vigorosa lambida no lábio inferior, que parecia estar mais seco que o habitual.

– Bem que poderia chover um pouco, não é? Está muito seco ultimamente… – disse um dos homens.

Tanta ação havia deixado o personagem desta fabula tonto. Repetiu mais uma vez que estava sendo perseguido pela própria morte incorporada de traços nipônicos e que precisava de uma ajuda maior que uma análise climática para sair vivo dessa. Os dois olharam-no, levantaram um ou duas sobrancelhas e, por fim, deram de ombros. “Pelo menos fora algo mais parecido com preocupação, desta vez…”, pesou.

– Dê-me uma arma pelo menos, seus animais! – gesticulou com a sua mão para que lhe jogassem algum objeto de destruição em massa. “Algo como o CD da Celine Dion, sei lá”. Um dos homens começou a revirar uma pilha de entulhos. Foi quando o som da moto se tornou audível e o do ranger dos dentes do personagem completamente inaudível.

Duas motos, de repente, surgiram entre a pilastra e o pequeno acampamento. “Duas?”, pensou, “sério, eu queimaria todos os meus mangás se eu soubesse que esses japoneses safados iriam me sacanear assim um dia!” e não conseguiu deixar de notar que as motos pretas eram japonesas, a arma gigante, que estava mais uma vez apontada para sua cabeça, de uma empresa japonesa e aqueles olhos fechadinhos e sem expressão vinham de um maldito gene japonês. “Malditos.”

Thumbs Up!

Foi quando caiu algo ao seu lado. Tirou o olhar do longo cano apontado para si e olhou uma pequena pistola preta caída ao seu lado. Olhou para o acampamento e um dos seus companheiros lhe abria um amplo sorriso e lhe dava um “Thumbs Up!”, símbolo universal do “te fode, irmão!”. Estava fodido mesmo e, sem pensar muito, pegou a pistola, mirou a cabeça da japonesa e atirou.

“Rá tá tá tá”, mas nenhuma bala havia saído. Só um som que tentava, sem muito sucesso, desesperadamente ser o de uma metralhadora emergiu no espaço, agora silencioso, do estacionamento. Olhou melhor a sua arma e viu que ela tinha um pequeno fio que pendia da coronha, terminando numa pequena terminação elétrica que – ele sabia, conhecia bem aquele plug – deveria ser ligada num antiguíssimo Master System, ou aparelho similar. Era uma arma de brinquedo.

Olhou melhor a arma e leu “Sega” impresso na lateral. “Malditos japoneses, todos…”.

Pulou para frente da japonesa, seus pés amplamente separados e fixos no chão, apontou-lhe com firmeza a arma e, repetidamente, apertou o gatilho:

– Toma isso, e isso, PTIÚ, ah! Não esperava por, PTIÚ, por essa, não é? PTIÚ, PTIÚ!

Uma nota: “PTIÚ!” é a onomatopéia mais perfeita já criada para descrever disparos laser que se movimentam as velocidades menores que a da luz. Ou seja, os lasers de Star Wars, criados com o único objetivo de serem bloqueados. Depois de alguns disparos contra a japonesa – que defletia com o seu olhar cada disparo, como se seu sabre de luz se chamasse “DESPREZO” – correu em direção à moto preta e disparou um pouco contra ela:

– E você, sua maldito consumidora de combustíveis fosseis, mais isso e isso: PTIÚ! PTIÚ! Quem manda, PTIÚ, nesse pedaço são, PTIÚ, as bicicletas, PTIÚ, sua escrota filha da puta, PITÚ!

Ainda não satisfeito apontou para todas as direções e continuou a disparar contra tudo e todos: “E isso é, PTIÚ, para você seu mundinho escroto, PTIÚ, por ter se tornado tão miserável, PTIÚ, e nojento e por ter tirado de mim, PTIÚ, os meus blogs, PTIÚ, e as minhas, PTIÚ, redes piratas de, PTIÚ, compartilhamento de arquivo, PTIÚ, e PORNÔGRAFIA!

PTIÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ!

Soltou um último e longo disparo enquanto caia no chão de braços abertos, esperando o disparo fatal que lhe faria virar pó dois terços do seu corpo e uma boa parte do chão em baixo dele em um fumegante buraco. O que veio, no lugar disso foi o segundo motoqueiro, que havia ficado mais para trás, escondido atrás de uma pilastra. Retirou o capacete e revelou uma cabeça não muito menor que o capacete, cheio de veias e dispositivos mecânicos entranhados na carne.

– Temos uma proposta para você – falou o cabeçudo, enquanto desenrolava um longo papiro – está descrito aqui, em minúcias, nossos objetivos e filosofias políticas, também uma lista de pessoas que apo…

– Ô, tiozinho, pode parar com essa merda, aê. Não quero saber o por que queres fazer quaisquer merda – falou enquanto se levantava do chão, jogando energicamente a pistola contra seus companheiros, que continuavam tão surpresos quanto antes. Um deles havia começado a fazer as unhas do pé, enchendo o ambiente de um som característico: PLÉC – apenas diga o que é para ser feito: Estupre umas criancinhas, empurre uns velhinhos na rua, queime um orfanato. Tanto faz, só quero meu pagamento, ouviu?!

Com um triste olhar, o Cabeçudo olhou para o seu negligenciado papiro. Não era a primeira vez que alguém recusava a ler o seu texto tão bem redigido e preparado. Na verdade, ninguém, exceto ele mesmo havia lido a extensão toda, e se ressentia muito toda vez que alguém fazia aquilo. Guardou o papel sob a jaqueta de couro, escondeu uma lagrima e disse:

– Muito bem, trate dos preparativos com a Márcia, ela sabe de toda a missão e quaisquer outras coisas que precise saber – apontou para a japonesa.

Ficou um tanto quanto pensativo quanto à revelação do nome da japonesa. “Márcia?!”, “só pode ser brincadeira”. Então um pensamento lhe ocorreu e, antes que o cabeçudo, já de capacete posto, subisse na moto, perguntou-lhe:

– Ei! Quer dizer que era isso o tempo todo?! E vocês, seus dois fudidos sabiam desde o inicio também?! – apontou para os dois que riam – Então por que essa perseguição infernal por três malditos quilômetros, atirando em mim com esse maldito canhão?

O cabeçudo olhou para ele, depois para Márcia, soltou um riso abafado subiu na sua moto e, antes de ligar-la falou:

– Não sei direito, foi idéia dela. Algo haver com um filme pornô antigo: Weapons Of Ass Destruction n. 4, com Luci Thai.

Saiu zunindo com a moto pela rampa, deixando para trás o cheiro de combustível e borracha queimada, e o primeiro sorriso que ele já havia visto na boca daquela japonesa.

***

Foi ai quando acordei, triste por não saber ao certo qual era a tal missão, nem se eu conseguiria um dia sabe-lo.

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Feliz Aniversário
junho 17, 2009, 5:21 pm
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firebird

É nessas horas que eu lembro porque eu amo o Google. Feliz aniversário, Stravinsky – onde quer que esteja.



Paranoia
junho 15, 2009, 7:30 am
Filed under: Outros, Sarcasmo

paranoia

Não que eu ache impossivel, mas eu duvido que aquele carro preto estacionado a dois dias do outro lado da praça seja do FBI ou da KGB.

Acho que alguem da equipe do Chrome tomou um pouco mais do cereal NEUROSE n’alguma manhã.



O Quarto
junho 13, 2009, 12:56 pm
Filed under: Nerd, Outros

claus

Este quarto é Deus.

Dutos elétricos enquanto artérias se conectam ao pequeno, porem luminoso, cérebro de 60W que pende do teto – sempre aceso. As tripas se remexem por dentre intestinos de madeira e jeans. Ciclope de nascença, esse deus, pois exibe apenas uma janela na parede norte, que permanece fechada e trancada, a maior parte do tempo.

Não tem porta, meu quarto.

Normalmente me perguntam: “Que fazes entre as vísceras do divino?!”. Não sei, de fato, mas converso com as paredes diariamente. Dou-lhe conselhos (as vezes dúbios, pois eventualmente não sei bem o que responder), trocamos idéias e as vezes desabafa comigo. Diz que está um pouco cansado, mas não consegue dormir, mesmo de olhos sempre fechados.

Me pergunto se não é culpa minha…

Como vim parar neste quarto é uma questão meio controversa – não lembro ao certo. De recordações, a maioria eram as dentre estas paredes. Mas nem sempre elas foram assim, de cor opaca, carregadas por infiltrações e uma ou outra rachadura a lhe ornar a tinta que descasca.

Tinha uma vaga recordação de quando aquele quarto era bem maior. Quanto maior, não sei ao certo, mas era imenso. Poderia se tentar correr de uma lado a outro sem encontrar os limites físicos da alvenaria. O teto era alto, tão alto quanto um teto poderia vir a ser e se estendia até onde eu conseguia focar minha visão. Era de um azul turquesa maravilhoso e denso. A lâmpada pedia de lá do infinito, mas não era de humildes 60w como a de hoje. Não, era muito mais forte, muito mais brilhante. Era como uma imensa explosão de calor por todo o ar ao meu redor.

Certa vez eu havia decidido andar em linha reta, até onde me permitissem os ligamentos de meus músculos e a sanidade de minha mente. Não sei por quanto tempo eu andei – nem o por que fiz isso – mas quando dei por mim, estava andando num espaço vazio, meus pés se apoiavam em coisa alguma, apenas um vazio negro. Pequenos focos luminosos passavam por mim, como insetos. Olhando de perto, tinham o formato de pequenas espirais luminosas, cheias de algo mais que luz.

Corri mais algum tempo e já não havia mais nada, nenhum foco de luz, nenhum inseto espiral nem nada, apenas escuridão. E quando pensei que minha consciência também se esvaia naquele vazio profundo, senti algo mais concreto sob meus pés. Então percebi que eu havia pisado num piso de madeira, que de repente surgia da escuridão, sem muitas explicações.

Notei também que, da mesma forma, surgiam duas paredes e já era possível vislumbrar o teto cingindo da escuridão a qual me encontrava. Chão, teto e paredes pareciam dirigir-se até um ponto à frente. Um vertice, como o canto de um quarto.

Andei mais e mais, à procura do ponto inicial, de onde surgia a estrutura. Pensando agora, era como uma versão aumentada do lugar que eu me encontro hoje em dia. E foi assim que eu cheguei no pequeno canto do quarto, onde reunia-se o teto e duas paredes, como se tudo aquilo fosse uma mera extensão de um quarto normal.

Havia uma janela fechada na parede esquerda. Indicios de um pequena infiltração também se revelava proximo ao vertice. Uma figura alta e forte, de longa barba branca e túnica de mesma cor me esperava lá. Ria como se eu estivesse contando uma piada. Estava sentado numa pequena poltrona de veludo vermelho. Falou-me alguma coisa enquanto sorria amplamente. Percebi, então, o quanto eu estava exausto. Meus olhos fechavam, fora de meu controle.

Foi quando ele convidou-me a voltar pra casa. Acordei olhando outra vez o azul turquesa, sentindo o calor de casa. Fora um sonho? Não sei ao certo.

Mas este tempo passara, e desde daquilo, tudo parecia ter lentamente se tranformado. O azul fora pouco a pouco substituido pelo forro de madeira, as imensidões confinadas e a lâmpada primordial brilhava agora fraca, muitas vezes falhando, dando sinais de cansaso. A janela era a mesma daquele evento, mas nunca mais eu havia visto o senhor de longas barbas.

Agora eu não mais corria alegre. Vivia deitado, ouvindo a voz triste e nostálgica que emanava das paredes. Sentia as contrações do quarto, pois era ainda vivo. Sempre fora. Sua imensidão anterior apenas dispersava a sua consciência. Agora, menor, estava lúcido – como alguem que, um pouco antes de morrer, ganha total onisciência de sua situação.

***

Um dia, senti algo estranho ocorrer. As paredes vibravam levemente, a voz gemia de dor. Fiquei a espera de alguma cataclisma, das paredes desabando em mim. Mas nada aconteceu. A lâmpada então apagou, espalhando aquela escuridão já conhecida pelo quarto. Tateei meu caminho até a janela. Tentei abri-la a primeira vez, mas sequer moveu-se.

Imprimi mais força na segunda investida e de súbito escancarou-se de forma inesperada. Uma luz estranha inundou o quarto e vi, atrás de mim, abrir uma porta – uma que eu nunca havia visto antes, mas não conseguia duvidar que estivesse ali desde sempre.

Vi de relance uma figura vestida de branco sair por ela. Decidi deixa-lo ir e segui meu próprio caminho. De um salto, voei pela janela, meu corpo modificou-se e meu pensamento não mais era pensamento. Solidificara-se.

Foi desse jeito que meus dias terminaram. Já não existem mémorias desde daquilo tudo. Apenas uma claridade insuportável, mas esclarecedora. Não preciso mais do quarto. Ou ele não precisa mais de mim. Tanto faz agora.

Converso com alguem que agora habita dentro de mim.