Psicodélica


Santanderises
agosto 20, 2010, 8:04 am
Filed under: Outros

Santander não tem muito que contar senão histórias de vexames homéricos. Continuamos com a série de festivais cuja principal distração é uma mesa de ping pong. Desta vez, ao menos, não estamos encarcerados sozinhos em uma ala psiquiatra só nossa, como foi em Ourense, onde estávamos isolados, solitários e aterrorizados pelos fantasmas de nós mesmos – lá, nos movimentávamos pelos fantasmagóricos corredores do nosso alojamento como almas bêbadas em busca de companhia para nossas alucinações ébrias, achando pouco descanso no conforto que lá tínhamos.

Aqui estamos com o grupo mexicano Tenochiclan – com quem já estamos dividindo alojamentos faz algumas semanas – e algum outro grupo russo, com um nome impronunciável e de difícil comunicação, já que a principal seqüela que a guerra fria deixou para a Mãe Rússia foi um povo sem muitas habilidades com a língua inglesa. A única pessoa do grupo russo que fala inglês, a tradutora de olhos azuis e olhar maquiavélico, resolveu me ignorar depois de saber, horrorizada, a minha preferência por trocar o café de manhã por uma bela dose de vodka barata.

Sinceramente, eu esperava mais de uma russa.

Portanto, estamos confinados a nossa rotina alcoólica de comprar litros de vinho (um litro de vinho aqui custa nada mais, nada menos, que simbólicos 50 cêntimos de euro) e provar para nós mesmos que o fundo do poço é sempre um pouco mais embaixo. Noite passada, nossa fúria vinícola proporcionou o espetáculo mais bizarro já visto. Eu já estava na cama, controlando a ânsia de vomito – misturar tipos de vinho é tão ruim quanto a mistura de tipos de bebida – observando um pequeno campeonato de peidos entre os músicos da banda. Depois de algumas semanas de convivência, essa é a rotina da turnê, acredite.

Foi nesta hora que algum músculo invisível, movido pelo nervo da ironia, resolveu falhar em algum lugar do corpo do nosso banjista. Começou nesse lugar invisível do corpo, correu dezenas de músculos e tendões até fazer chegar a informação, um comando de cessar, de desistir, de parar de lutar, destinada, ironicamente, ao único músculo que deveria permanecer rijo, impassível e instransponível naquele momento. O desastre tomou forma numa única frase do banjista, que após peido campeão, disse, com olhar reflexivo:

“Ai, acho que me caguei…”

A maratona ao banheiro só não foi tão frenética quanto as risadas do quarto inteiro pelo azar do homem. Eu, particularmente, estava completamente apavorado. Já recuperado – não totalmente, claro, mas já o bastante para estar vigilante – eu temia pelo pior. Um bêbado no quarto já é capaz de causar as piores tragédias ao patrimônio alheio. Um bêbado CAGADO, Jesus, eu nem queria imaginar do que ele seria capaz.

O terror chegou a um ápice dramático quando o bêbado voltou ao quarto com um pedaço de pano rosa em mãos. Os grandes borros cor de café indicavam que era a finada cueca do bêbado, o qual balançava-a como se fosse a própria bandeira nacional de um país no qual o principal produto de exportação fosse a flor de merda que brota nas grandiosas planície intestinais. Já conseguia imaginar aquilo sendo projetado em direção às minhas roupas lavadas no dia anterior.

A coisa toda já tinha virado um filme do Tarantino quando o vomito começou. Por todo o quarto. No chão, na cama, dentro do armário (!!!). Por horas me mantive imóvel, rezando para que aquele pandemônio de excrementos não se aproximasse de minha frágil fortaleza. Às seis horas, por intervenção divina, tudo terminou numa sinfonia de peidos e roncos abafados pelos cobertores, o quarto, um campo de batalha da flora intestinal. Eu havia sobrevivido, afinal. Podia descansar tranqüilo que minha roupa estaria utilizável na manhã seguinte.

Quando acordo, a camareira me olhava com olhar inquisidor, pronta para me culpar pela bagunça que eu não tinha feito e ela teria que limpar. Os culpados, claro, dormiam o sono dos tombados, incapazes de serem responsabilizados pelos seus próprios feitos. A vergonha, restando aos que estavam acordados para senti-la. C’est La Vie.

E, ainda, esta não superou a vez que, quando em Portugal, nosso violonista, bêbado de Alavrinho (Vinho chiquérrimo da região), percebeu que sua meia estava ensopada de mijo. Mijo dele mesmo, aparentemente. O banjista – campeão intestinal, ao perceber tamanha cena, não resistiu e riu o mais alto que podia. Riu tanto e tanto, que acabou por cagar nas calças também. A dupla voltou rindo e saltitando para o alojamento.

Imagino que vocês devam estar se imaginando “e esse baixista? Bebe e, por acaso, não faz merda?!”.

Bem… vão procurar o blog do banjista para saber.

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Dupla
agosto 16, 2010, 9:36 am
Filed under: Outros

Em Viveiros a brisa do mar é perpetua, trazendo do Atlântico norte o frio e um mau-cheiro peculiar que parece ser característico de todas as praias oceânicas da Europa. Isto não diminui a beleza da paisagem – o oceano adentra a cidade, espremendo os diversos apartamentos às suas margens nas montanhas e abre caminho para pequenas embarcações pesqueiras que ficam ociosas a maior parte do dia, como que esperando os ciclos da maré que, em pouco tempo, transforma o que era correnteza em uma pedreira molhada onde gaivotas predam os peixe que foram deixados para uma morte lenta, presos sem oxigênio nas pequenas poças de água, tudo que restou do rio.

Eu sempre fui um tolo romântico para paisagens. Fico imbecil ao contemplar um pequeno monte de terra, imagine as cidades cerceadas de montanhas da Europa. Logo procuro um lugar que eu possa me sentir em um final de um filme trágico, sendo o protagonista que, com olhar profundo, pensa em algo além do alcance do mero expectador dentro da sala escura do cinema. Agarro o primeiro instrumento acústico que vejo e me sinto, então, à vontade para cantar uma música e aproveitar um pouco a solidão que é cantar pra si.

Tolo romântico, como eu disse.

Hoje, porem, ao tentar o meu pequeno ritual babaca da solidão cafona, eu empaquei no óbvio: que música tocar, afinal? Pensei um pouco, e decidi alguma coisa tradicional. Toquei até a metade, insatisfeito com a minha incapacidade de recordar a letra de uma canção que eu já conhecia de trás para frente. Tentei outra música e me vi perdido entre as estrofes e em pouco tempo eu estava de volta à primeira música, completamente frustrado. Eu simplesmente não conseguia cantar coisa alguma.

Diante de tamanha decepção para com um dos meus passatempos favoritos, eu acabei me questionando sobre o que tinha mudado, por que eu não conseguia lembrar de uma música sequer para tocar. O entendimento veio, carregando um frio diferente do que eu estava acostumado, impossível de ser combatido por um casaco ou cobertor. Eu não me lembrava das músicas por que a uns bons anos eu não precisava mais escolher repertórios. Não me lembrava das letras por que eu tinha alguém que cantasse para mim e eu nunca me confundia com as estrofes por que ela sempre sabia a ordem daqueles versos longos e confusos. Mesmo quando eu cantava sozinho, meu olhar permaneceria no dela, esperando o momento inevitável no qual ela iria vir corrigir a letra errada, o ritmo enganado… E agora que ela não está aqui, eu me sinto como que uma criança que precisa aprender a caminhar só.

Saudades da minha dupla de new-indie rock.



Monção
agosto 4, 2010, 12:38 pm
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Finalmente saímos das Canárias – aquele inferno incompreensivelmente seco, pois fica no meio do oceano – e estamos em Monção, em um festival no meio do nada com os grupos mais porradas que já encontramos até o momento. Tinha de tudo: Pavões dourados pegando fogo, bailarinas aleijadas, maconha ritualística, etc…

Uma pena que ficaremos apenas quatro dias aqui, pois este é o tipo de festival que você vem de um hemisfério a outro para tocar. Grupos fantásticos, com bandas excelentes. Não é a toa que o Brasil é o único grupo com músicos que não são profissionais.

E por algum motivo que eu não consigo definir, as meninas da Sérvia me chamam de “Nicaragua”. Whatever.