Psicodélica


Postiço
agosto 31, 2009, 11:15 pm
Filed under: Sarcasmo

Um velho estranhou meus dreads numa fila de banco hoje. Tinha um chapéu de Cowboy, pinta de interiorano e muita vontade de fazer amigos. Eu, de minha parte, tinha acabado de chegar do calor miséravel da rua e pensava em como destruir o mundo com o conteudo da minha mochila. Uma combinação propicia.

– Ôoo, meu filho, isso é de verdade? – Falou o velho manipulando os meus dreads.

– Não senhor, eu tiro toda noite.

– Ahh… – Ele não pareceu acreditar muito.

Um silêncio meio constrangedor atingiu a fila. Resolvi então falar com o velho:

– Ôoo, tio! E esses ai? São de verdades?

– O que, meu filho?

– Esses seus dentes.

– …

– Não?

– Tá, empatamos!

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Fazia tempo…
agosto 20, 2009, 1:04 am
Filed under: Clave de Fá, Sarcasmo

Ao ouvir Icefire agorinha, me dei conta de algo: Fazia muito tempo que eu não ouvia essa música…

Tempos negros, amigos… Tempos amargos.



Duas Pernas
agosto 12, 2009, 8:35 pm
Filed under: Outros

Aqui em Olímpia, interior de São Paulo – sim, estou em São Paulo no momento, participando do 45° Festival do Folclore com o BFAM – estamos alojados em uma pequena escola fundamental. Como seria indispensável a tal instituição, assim como o são as professoras e as carteiras pichadas, as muitas paredes das salas são adornadas com os mais diversos (e horríveis) desenhos, que ilustram ícones do imaginário infantil.

Não querendo desmerecer a boa intenção dos idealistas infantis, pois de boa intenção carecemos muito, apesar do que diz aquele velho ditado, mas as distorções aparentes nos velhos personagens são tão grotescas que venho a me perguntar em que estado de espírito estavam tais pintores, quando faziam os pés do carrancudo Pato Donald humanos, e não nadadeiras como é o normal, ou um Peter Pan, que parecia uma versão de Tim Burton para o personagem, de tão bizarro que este se apresentava, acompanhado de uma sininho que mais parecia um borrão de tinta.

Um destes personagens inscritos na parede me chamou a atenção hoje, enquanto andava pelo alojamento. Era um pequeno Saci, porcamente desenhado, dizendo através de um balão de fala as palavras “falta-me uma perna, mas sobra-me alegria”. Um belo exemplo de mentiras que contamos para nosso primo aleijado, para ele não se sentir mal quando não convidamos ele para a bola do fim de semana.

Mas existe algo errado com esta sentença. Como pode, de um Saci, faltar perna? Ora, não é ele Saci ao nascer e, durante todo o tempo que passa neste mundo, ainda um Saci? E não é o Saci algo diferente dos homens? Não falamos que sobram pernas a um cavalo, por ele ter quatro patas, nem que o reino Plantae inteiro nasceu aleijado, pela falta das pernas em arvores e arbustos. São de espécies diferentes do célebre Homo Sapiens Sapiens e ninguém estranha de não terem duas, e apenas duas, pernas.

Então por que seria diferente a concepção a respeito do Saci? Ora, diz-se que era um neguinho que perdeu a perna lutando Capoeira, mas sabe-se que essa é a versão já deturpada da lenda original, na qual o Saci é de nascença um ser mítico. Ora, sendo ele derivado de uma outra espécie, não lhe falta pernas, nem sobra. Nasceu daquele jeito e, dentro do seu próprio universo, é perfeito de corpo, assim como um polvo o é com seus multi-tentaculos.

Ou seja, se fores um Saci, amigo leitor, com seu computador, entocado em algum ponto do Brasil após um dia de peraltices e traquinagens, saiba: Não se irrite quando falam-lhe que te falta uma perna. O que sobramos de pernas, nos falta em bom senso.