Psicodélica


Duas Análises de Música – Sobre a Interpretação da Música
janeiro 5, 2011, 5:01 pm
Filed under: Nerd, Review | Tags: , , , , ,

Hoje, numa situação especial, gostaria de apresentar uma interpretação para duas músicas (três, na verdade, mas chegaremos nisso) cujos temas e desenvolvimentos me parecem dignos de uma analise mais depurada. O fascínio que ambas as músicas exercem sobre mim parecem adivir de alguma fonte que não consigo muito bem delimitar, imagino que talvez destrinchando ambas as músicas – feito porcos no açougue – me ajude a um entendimento pleno do por que estas músicas têm um efeito um tanto que hipnotizador sobre mim. Ou não. Em frente…

Thrak Cover

Thrak Cover

 

As músicas são One Time e Inner Garden (I e II) do disco Thrak da banda King Crimson. Acho que podemos falar um pouco da banda e fazer uma rápida análise da estrutura da composição de ambas as músicas. O KC (e assim irei me referir a eles, por pura preguiça) é uma das bandas de maior longevidade na história do rock progressivo, atuando desde os anos 60. A banda, fundada em Londres, passou por inúmeras reformulações durante sua historias, com quase duas dezenas de instrumentistas que já passaram pela banda. Neste CD especifico, temos um line-up de seis músicos que formam algo como uma dupla de trios.

Não vamos nos alongar aqui. Se você quiser mais informações sobre o KC, você pode encontrá-las na pagina deles na Wikipedia, clicando aqui.

Comecemos então por One Time, composição que me parece mais tranqüila para uma analise, tanto musical quanto do seu sentido. Sua estrutura harmônica é simples: Quatro acordes da tonalidade de Dó menor se alternam em um 6/8 constante. Existe um empréstimo modal no refrão (quando se usa um Sol maior, da tonalidade de Dó menor harmônica) e este é a única mudança tonal que a música oferece.

One Time não é de forma alguma uma música complexa. Bateria e baixo provem suporte solido e relativamente constante em sua forma para as guitarras que fazem o tema da música (que é um dedilhado que explora os acordes que se repetem durante a música toda). Eu poderia me arriscar e dizer que a força da música viria a reduzir-se na sua letra e apenas nesta, mas imagino que isso seria um tiro no pé cedo demais para minha analise. Posso deixar a parte polêmica para depois. Vamos à letra, portanto. Farei esta analise da seguinte forma: Apresento cada estrofe da letra e irei discutir cada uma com um comentário logo abaixo dela.

 

One Time
King Crimson

A música fala sobre desespero, basicamente. Frente à fragilidade humana e a hostilidade da vida, só basta ao sujeito levantar a mão de misericórdia, apelo este feito a um outro que nem sempre está disponível à nossa demanda e ao nosso sofrimento.

one eye goes laughing,
one eye goes crying
through the trials and trying of one life

É impossível não associar este primeiro parágrafo com a clássica imagem das máscaras do teatro. Estas são caracterizadas por duas máscaras, uma chorando e a outra rindo – mas existem muitas versões que condensam ambos os elementos em uma única mascara, cuja primeira metade apresenta as feições alegres e a segunda a triste.

Claro, é um parágrafo sobre de como a vida é formada desses dois pólos opostos: Felicidade, satisfação, desejo e, do outro lado da moeda, dor, frustração e morte. Mas creio haver aqui um elemento a mais da mascara: a sua anonimidade, a qual empresta ao personagem da música não só um caráter universal (como os antigos gregos usavam a mascara para retirar a individualidade do personagem para infligir maior identificação da platéia), mas também retira sua própria história, seu rosto e lhe joga no mundo onde a busca pela própria identidade geralmente podem ter resultados nada positivos ao sujeito.

Como diria Sören Kierkegaard, o desespero parece ter um motivo externo ao sujeito, mas apenas por um momento. O que viria a ser este desespero, por fim, é o horror de si próprio, de não suportar sua própria imagem especular. Esta mascara, portanto, denota o desespero do personagem, de ser o que é (mera imagem humana, sem individualidade ou historia própria). Mas teremos que fazer algumas associações com parágrafos posteriores para que este ponto tenha maior embasamento.

one hand is tied,
one step gets behind
in one breath we’re dying

O sujeito está preso por algo e, numa imagem improvável, o passo que o levaria a frente o leva para posições anteriores. Somos livres, afinal? O quanto eu não sou determinado por onde moro, com quem vivo e por quem me criou? Muitas vezes, somos tão alheios a nós mesmos que sequer notamos que andamos em círculos, damos passos falsos a frente e vivemos como que presos por algo.

E, de repente, morremos. Infelizes, geralmente.

i’ve been waiting for the sun to come up
waiting for the showers to stop
waiting for the penny to drop
one time

Começa o refrão. Este trecho em particular mostra uma súplica do personagem. Por ajuda, por melhores vidas, por redenção, qualquer coisa que pareça trazer alívio. Não nos interessa saber qual a enfermidade que aflige o sujeito aqui. O mal é existir e desse mal, todos os humanos buscam conforto. Aqui o personagem espera (e vem esperando há muito tempo, ao que parece) pelo sol nascente – símbolo natural de esperança, calor, que afugenta a escuridão.

Logo em seguida, vem um simbolismo que eu não consegui depurar em muita coisa. Que significa “Waiting for the showers to stop”? Realmente eu não consigo sequer ter idéia do que isso possa significar. Fica aqui o “umbigo” da interpretação, como diria Freud. Um ponto que eu não consigo ir muito além na interpretação.

Seguindo, o personagem termina esta estrofe falando que espera “o centavo cair” (numa tradução livre). Na tradução oferecida na Internet aparecia uma tradução de “penny” como sendo “orvalho”. Apesar de pesquisar sobre qualquer ocorrência desta palavra no sentido citado, não encontrei nada. Deduzo, portanto, que seja mais um caso de má tradução (não confiem na internet, rapazes). Considerando aqui a tradução “centavo” eu dou a seguinte interpretação para a imagem: Um mendigo. Este mendigo agoniza nas ruas, anda sujo e maltrapido, indefeso contra frio, calor, fome ou violência. O mínimo que ele pode esperar são os pequenos centavos, que caem da mão daqueles que podem dar para as suas. A relação de verticalidade aqui encontrada (aquele que recebe está com as mãos abaixo daquele que dá) não deve ser ignorada e demonstra o que o personagem, em situação desfavorável, espera: o mínimo de atendimento a uma necessidade humana de atenção, de ajuda.

and i’ve been standing in a cloud of plans
standing on the shifting sands
hoping for an open hand
one time

No parágrafo final, o apelo é substituído pelo personagem falando de sua posição, através de imagens bastante oníricas. Para estas, eu creio que o seguinte entendimento se encaixa na descrição que estamos fazendo aqui: O personagem se encontra em uma “nuvem de planos”, o que me parece ser as constantes maquinações que elaboramos para nossas vidas, todos os nossos planos que sonhamos. Mas a verdade é que todos acabam se tornando apenas isto, planos. Não se materializam, tornam-se como o éter que preenche o universo, uma nuvem que podemos ver, mas não tocar.

Prosseguindo, o personagem se diz parado em “areias que mudam” (tradução muito literal, talvez, do termo “shifiting sands”). Sem hesitar, eu digo que isto é também outra metáfora para a vida do sujeito, que se ergue sobre areia, mais um daqueles elementos que são quase incorpóreos, difíceis de agarrar e, no caso, que costumam desmoronar sobre os pés daqueles que muito confiam neles.

A música encerra com a frase “esperando por uma mão aberta” e a repetição do termo “uma vez”. E é o que se espera, afinal. Uma ajuda sincera – uma espera que já tem longa data e não tem fim definido. Pelo próprio termo “uma vez”, seria correto vir a pensar que seria pela primeira vez, já que o sujeito da música desvenda sua condição de desespero e solidão no mundo. Mas, para este sentimento, não existe ajuda. A espera é fútil e a música termina de forma a denunciar esta espera com um fade-out, ou seja, sem um fim definido.

Agora, chegando aqui ao fim da análise, me faço algumas perguntas: Poderia ser o sentido desta letra que tanto me atraiu? Mas como, se à primeira audição eu senti uma afinidade imensa na música, sem ter visto letra ou analisado qualquer coisa. Poderia a música comportar o sentido expresso na letra?

Bem, fiquemos com essas perguntas para o próximo post.

Anúncios

Deixe um comentário so far
Deixe um comentário



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: