Psicodélica


Dupla
agosto 16, 2010, 9:36 am
Filed under: Outros

Em Viveiros a brisa do mar é perpetua, trazendo do Atlântico norte o frio e um mau-cheiro peculiar que parece ser característico de todas as praias oceânicas da Europa. Isto não diminui a beleza da paisagem – o oceano adentra a cidade, espremendo os diversos apartamentos às suas margens nas montanhas e abre caminho para pequenas embarcações pesqueiras que ficam ociosas a maior parte do dia, como que esperando os ciclos da maré que, em pouco tempo, transforma o que era correnteza em uma pedreira molhada onde gaivotas predam os peixe que foram deixados para uma morte lenta, presos sem oxigênio nas pequenas poças de água, tudo que restou do rio.

Eu sempre fui um tolo romântico para paisagens. Fico imbecil ao contemplar um pequeno monte de terra, imagine as cidades cerceadas de montanhas da Europa. Logo procuro um lugar que eu possa me sentir em um final de um filme trágico, sendo o protagonista que, com olhar profundo, pensa em algo além do alcance do mero expectador dentro da sala escura do cinema. Agarro o primeiro instrumento acústico que vejo e me sinto, então, à vontade para cantar uma música e aproveitar um pouco a solidão que é cantar pra si.

Tolo romântico, como eu disse.

Hoje, porem, ao tentar o meu pequeno ritual babaca da solidão cafona, eu empaquei no óbvio: que música tocar, afinal? Pensei um pouco, e decidi alguma coisa tradicional. Toquei até a metade, insatisfeito com a minha incapacidade de recordar a letra de uma canção que eu já conhecia de trás para frente. Tentei outra música e me vi perdido entre as estrofes e em pouco tempo eu estava de volta à primeira música, completamente frustrado. Eu simplesmente não conseguia cantar coisa alguma.

Diante de tamanha decepção para com um dos meus passatempos favoritos, eu acabei me questionando sobre o que tinha mudado, por que eu não conseguia lembrar de uma música sequer para tocar. O entendimento veio, carregando um frio diferente do que eu estava acostumado, impossível de ser combatido por um casaco ou cobertor. Eu não me lembrava das músicas por que a uns bons anos eu não precisava mais escolher repertórios. Não me lembrava das letras por que eu tinha alguém que cantasse para mim e eu nunca me confundia com as estrofes por que ela sempre sabia a ordem daqueles versos longos e confusos. Mesmo quando eu cantava sozinho, meu olhar permaneceria no dela, esperando o momento inevitável no qual ela iria vir corrigir a letra errada, o ritmo enganado… E agora que ela não está aqui, eu me sinto como que uma criança que precisa aprender a caminhar só.

Saudades da minha dupla de new-indie rock.

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2 Comentários so far
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Tu e GAY!!!!
uahuaahuaahuhuahuahuahuahuahua

Comentário por Lucas

Without I’m nothing too.

Comentário por Renata Brabo




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