Psicodélica


Convite
março 15, 2010, 7:49 pm
Filed under: Outros

Acontecimentos recentes me fizeram vislumbrar o quanto a vida é demarcada pelos convites que recebemos em determinadas fases, e como esses acontecimentos são denominadores comuns em cada parte das nossas lembranças.

Penso que quando tínhamos de quatro a quatorze anos, recebíamos aqueles infames convites às festas de crianças ou de parentes mais velhos. Aliás, “convites” na verdade, pois muito provavelmente todos nós fomos coagidos a estas ocasiões, com severas ameaças de privações materiais.

De quinze a vinte e poucos, creio que todos lembram que foi a fase de receber aqueles vaidosos convites de quinze anos – “quianzolas!” – quer dizer, até mesmo eu (anti-social convicto e, de qualquer forma, alguém não muito requisitado aos badalos das rodas sociais) recebi uns dois ou três nessa época. E eu lembro que a sala de aula daquele tempo fervilhava com essas festinhas.

Então vem a fase dos vinte e dois aos vinte e seis: convites de formatura. Já fui convidado a uns vários e muitos outros me parecem ainda vir. Vejo meus amigos e inimigos antigos se formando, tomando um rumo nem sempre previsível em suas vidas, nem sempre justo ou correto (às vezes apenas uma extensão da vida passada deles), mas de qualquer forma, a vida segue com esse inexorável enviar de convites.

Bem, a partir daqui eu apenas posso especular sobre o que virá depois. Mas eu posso imaginar com alguma exatidão os próximos convites a vir.

Não creio que exista muito mais o que comemorar a partir daqui, a não ser o fato de ainda estar respirando, o que ninguém mais comemora – por enquanto. Penso que agora virão aqueles convites de capa negra, nem sempre formalizados em papel, mas estampados na forma de uma percepção sobre a natureza das coisas.

Casualmente pela rua, na praça ou no trabalho, encontraremos os velhos conhecidos que quando lhe dirigirmos as boas maneiras padrões, contarão as histórias de seus animais de estimação que, chegando ao final de suas curtas (mas longas o bastante) vidas, deixam para trás um sentimento desconfortável, como um dedo ossudo e descarnado que cutuca as nossas costas e quando viramos, já se foi o que quer que estivesse ali.

A partir daqui, viria de pouco a pouco: convite para o enterro de algum tio-avô longínquo, o tio de alguém, etc. Depois, missa de sétimo dia de nossa avó, sua madrinha, aquela tia amada ou de um meio irmão mais velho. Depois, nossos pais, nossos amigos…

Ora, o último convite me impõe uma pergunta óbvia: Podemos nós próprios sermos convidados ao nosso enterro –ora! Somos indispensáveis nesse festejo e de forma alguma deixaremos de estar lá! – ou seria o fato de estarmos mortos e decompostos uma séria limitação ao status de “convidado”? Afinal, não seriamos nós não convidados, mas sim intimados – como um prisioneiro frente ao juiz – a esta?

Bom, mas de qualquer forma, alguém receberá o convite para nos ver inertes na ultima casa que habitaremos…

Ou será que não?

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