Psicodélica


O Quarto
junho 13, 2009, 12:56 pm
Filed under: Nerd, Outros

claus

Este quarto é Deus.

Dutos elétricos enquanto artérias se conectam ao pequeno, porem luminoso, cérebro de 60W que pende do teto – sempre aceso. As tripas se remexem por dentre intestinos de madeira e jeans. Ciclope de nascença, esse deus, pois exibe apenas uma janela na parede norte, que permanece fechada e trancada, a maior parte do tempo.

Não tem porta, meu quarto.

Normalmente me perguntam: “Que fazes entre as vísceras do divino?!”. Não sei, de fato, mas converso com as paredes diariamente. Dou-lhe conselhos (as vezes dúbios, pois eventualmente não sei bem o que responder), trocamos idéias e as vezes desabafa comigo. Diz que está um pouco cansado, mas não consegue dormir, mesmo de olhos sempre fechados.

Me pergunto se não é culpa minha…

Como vim parar neste quarto é uma questão meio controversa – não lembro ao certo. De recordações, a maioria eram as dentre estas paredes. Mas nem sempre elas foram assim, de cor opaca, carregadas por infiltrações e uma ou outra rachadura a lhe ornar a tinta que descasca.

Tinha uma vaga recordação de quando aquele quarto era bem maior. Quanto maior, não sei ao certo, mas era imenso. Poderia se tentar correr de uma lado a outro sem encontrar os limites físicos da alvenaria. O teto era alto, tão alto quanto um teto poderia vir a ser e se estendia até onde eu conseguia focar minha visão. Era de um azul turquesa maravilhoso e denso. A lâmpada pedia de lá do infinito, mas não era de humildes 60w como a de hoje. Não, era muito mais forte, muito mais brilhante. Era como uma imensa explosão de calor por todo o ar ao meu redor.

Certa vez eu havia decidido andar em linha reta, até onde me permitissem os ligamentos de meus músculos e a sanidade de minha mente. Não sei por quanto tempo eu andei – nem o por que fiz isso – mas quando dei por mim, estava andando num espaço vazio, meus pés se apoiavam em coisa alguma, apenas um vazio negro. Pequenos focos luminosos passavam por mim, como insetos. Olhando de perto, tinham o formato de pequenas espirais luminosas, cheias de algo mais que luz.

Corri mais algum tempo e já não havia mais nada, nenhum foco de luz, nenhum inseto espiral nem nada, apenas escuridão. E quando pensei que minha consciência também se esvaia naquele vazio profundo, senti algo mais concreto sob meus pés. Então percebi que eu havia pisado num piso de madeira, que de repente surgia da escuridão, sem muitas explicações.

Notei também que, da mesma forma, surgiam duas paredes e já era possível vislumbrar o teto cingindo da escuridão a qual me encontrava. Chão, teto e paredes pareciam dirigir-se até um ponto à frente. Um vertice, como o canto de um quarto.

Andei mais e mais, à procura do ponto inicial, de onde surgia a estrutura. Pensando agora, era como uma versão aumentada do lugar que eu me encontro hoje em dia. E foi assim que eu cheguei no pequeno canto do quarto, onde reunia-se o teto e duas paredes, como se tudo aquilo fosse uma mera extensão de um quarto normal.

Havia uma janela fechada na parede esquerda. Indicios de um pequena infiltração também se revelava proximo ao vertice. Uma figura alta e forte, de longa barba branca e túnica de mesma cor me esperava lá. Ria como se eu estivesse contando uma piada. Estava sentado numa pequena poltrona de veludo vermelho. Falou-me alguma coisa enquanto sorria amplamente. Percebi, então, o quanto eu estava exausto. Meus olhos fechavam, fora de meu controle.

Foi quando ele convidou-me a voltar pra casa. Acordei olhando outra vez o azul turquesa, sentindo o calor de casa. Fora um sonho? Não sei ao certo.

Mas este tempo passara, e desde daquilo, tudo parecia ter lentamente se tranformado. O azul fora pouco a pouco substituido pelo forro de madeira, as imensidões confinadas e a lâmpada primordial brilhava agora fraca, muitas vezes falhando, dando sinais de cansaso. A janela era a mesma daquele evento, mas nunca mais eu havia visto o senhor de longas barbas.

Agora eu não mais corria alegre. Vivia deitado, ouvindo a voz triste e nostálgica que emanava das paredes. Sentia as contrações do quarto, pois era ainda vivo. Sempre fora. Sua imensidão anterior apenas dispersava a sua consciência. Agora, menor, estava lúcido – como alguem que, um pouco antes de morrer, ganha total onisciência de sua situação.

***

Um dia, senti algo estranho ocorrer. As paredes vibravam levemente, a voz gemia de dor. Fiquei a espera de alguma cataclisma, das paredes desabando em mim. Mas nada aconteceu. A lâmpada então apagou, espalhando aquela escuridão já conhecida pelo quarto. Tateei meu caminho até a janela. Tentei abri-la a primeira vez, mas sequer moveu-se.

Imprimi mais força na segunda investida e de súbito escancarou-se de forma inesperada. Uma luz estranha inundou o quarto e vi, atrás de mim, abrir uma porta – uma que eu nunca havia visto antes, mas não conseguia duvidar que estivesse ali desde sempre.

Vi de relance uma figura vestida de branco sair por ela. Decidi deixa-lo ir e segui meu próprio caminho. De um salto, voei pela janela, meu corpo modificou-se e meu pensamento não mais era pensamento. Solidificara-se.

Foi desse jeito que meus dias terminaram. Já não existem mémorias desde daquilo tudo. Apenas uma claridade insuportável, mas esclarecedora. Não preciso mais do quarto. Ou ele não precisa mais de mim. Tanto faz agora.

Converso com alguem que agora habita dentro de mim.

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