Psicodélica


Teoria Social Ambulante
agosto 16, 2008, 8:01 pm
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Em outros tempos, a mera leitura de uns 3 ou 4 paragrafos, dentro do ônibûs ou de qualquer outro veiculo, me fariam efeito semelhante ao que uma montanha russa provocaria à uma pessoa enjoada – chuva de vomito. Minha memoria infantil é recheada da lembrança de pés alheios, banhados naquela papa cor creme, pois haviam tido a infelicidade de estar ao meu lado depois de uma rapida tentativa de ler gibis no ônibus.

Mas dada a minha recente necessidade de pegar ônibus que fazem viagens que, quando curtas, duram uma hora – embalada com muito tédio e brega – me fizeram repensar os desafio da leitura veicular, já que aparentemente meu MP4 já virou IPod lá pelo céu dos eletrônicos (isso mesmo, leitor antigo, MAIS UM MP3/4 destruido) e eu fiquei sem escolha.
E veja só que surpresa: Livre da minha vertigem à leitura móvel, devoro livros de todos os tipos, pequenos contos para pessoas burras, longos épicos para intelectuais chatos e até um ou outro livro do Augusto Cury. Estou tão fascinado pela minha misteriosa cura que eu leio qualquer lixo que possua mais de 20 letras mais ou menos bem sequenciadas.

E foi assim que, sexta passada, lendo no busão um livro sobre religiões pré-historicas que fala  da nossa incapacidade cientifica de determinar se as “sociedades” dos paleolíticos tinham praticas religiosas ou não, o mendigo me abordou.

Sujo, mal trapido e sofrendo d’alguma deficiencia motora e (provavel causa desta) mental. Pedia dinheiro no ônibus atirando sobre as pessoas pequenos papeis (tão sujos quanto ele próprio) que implorava dinheiro.

Deviam implorar por um banho talvez – “e um Deus mais generoso”, imaginei.
Foi quando ele passou por min, desconfiado, olhou-me de cabo a rabo, exitou em entregar-me o papel da esmola que, com algum receio, entregou a min. Fiquei pasmo. O que teria feito um mendigo que banho não tomava faz uns meses ter nojo de min?

Na segunda vez que ele passou por min – aquela pra conferir a esmola e receber de volta os papéis, ele bateu no livro que eu lia com um dedo e com alguns gestos fez validar um trilhão de teorias sociais:

Apontou para o livro, seguido de uma cara de nojo. Depois fez um não com o dedo enquanto apontava novamente para o livro. Depois, com os movimentos vacilantes, que algum gene misteriosamente ausente lhe presenteou, fez o sinal da cruz, apontou para os céus e fez uma cara de aprovação, que beirava o ridiculo, dada a tentativa de parecer de alguma forma iluminada pelos céus.

Repetiu a menção de nojo ao livro e referiu-se outra vez aos céus. Saiu do ônibus entoando algum hino que se mantivera em sua memoria – ironicamente por algum milagre.

“E lá se vai minha pequena teoria social ambulante”, falei para min mesmo, vendo o pequeno mendigo cambalear pelas ruas. Sujo, deficiente… e religioso. Encaixa muito bem.

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