Psicodélica


A Volta (Parte 1)
novembro 21, 2007, 6:55 pm
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Era isso. Junto com 80% dos infelizes eu estava eliminado do vestibular de música da Usp, confirmando todos os meus temores e algumas previsões alheias. Agora eu era oficialmente mais um vagabundo na metrópole brasileira, sem utilidade, sem propósito e sem amor.

Tava na hora de voltar. Sonho tem validade e esse tava passado. A diarréia seria violenta. 

Bem que o retorno à cidade dos boatos poderia ser feito como no seu par ideológico: queria poder pular num buraco negro no meio da paulista e, ao sair do outro lado, me estatelar contra alguma das torres do ver-o-peso, pintando-a com o vermelho rubro das minhas veias e a decepção azul que vem de alguma parte indefinível de nossos corpos. E era azul de raiva mesmo.

Mas, infelizmente, eu ainda tinha uma incomoda viagem de 4 horas através do território brasileiro dentro de um avião lotado e que partia de Guarulhos – o que significa duas viagens, visto que Guarulhos fica pra alem das bandas de lá. E isso é longe bagarai. 

Taxista é um bicho esperto. Bonzinho, nunca. Esperto. Foi isso que me explicou o simpático motorista que me levou até o aeroporto ao ser questionado porque fez uma viagem que valia uns 150 R$ no mínimo, por meros 50 bucks.

Silva – descendente de portugueses, mas sagaz como uma rosquinha – demonstrou geometricamente, com auxilio da famosa física quântica de boteco, que a soma dos dias ruins, elevado ao cubo do numero de passageiros do dia – tudo somado ao desespero de não ter dinheiro pro aluguel do fim do mês – fizeram 50 reais um numero relativamente alto para aquela viagem. 

Típico contador de histórias, o taxista despejou em min diversas fábulas urbanas, habitadas por personagens de toda laia: ricos, pobres, sonhadores, defuntos, ganhadores da loteria entre outros. Estes valiam muito mais que a história em si, pois todo contador de historias sabe: se a narrativa é o creme do abacate, os personagens são só a popa.

Ora, tamanha desenvoltura artística deve ter sido culpada pelo meu último erro. Último só em ordem de chegada, por que, se existe alguma hierarquia para as merdas que eu faço, não existiria privada que não entupiria. 

Todas as historias me distraíram para um fato de vital importância: Era uma tarde fria e melancólica naquela quarta feira.

Quarta que era dia 14. 

Dia 14 que era um dia antes do dia 15.

Dia 15 no qual estava marcado meu vôo. 

 

Ahá!

“That’s ma’boy”

Assim, eu tava simplesmente 24 horas atrasado para o meu vôo, sozinho e no aeroporto mais chato e feio de toda a América Latina. Não que eu soubesse disso na hora mas logo eu iria perceber isso.

“Mas eu tinha marcado para hoje, minha senhora…” foi a minha desculpa padrão para as moças do check-in, que olhavam para o meu sorriso amarelo sem muita convicção. Que eu podia fazer? “Err… moça, é que eu errei o dia”. Mas nem pelo cú do dono da Tam eu faria isso. 

O jeito foi ficar esperando na lista de espera para o vôo das 21:00 (mesmo horário do meu vôo do dia seguinte). Mas sabe Deus – ou qualquer outro filho da puta – que tudo tem o seu lado bom. Cada mazela, pela sua própria natureza, leva consigo um germe de oportunidade e possibilidades, nem que para destacar o sofrimento momentâneo.

E foi dessa forma que, guiado pela oportunidade, puder ver o mestre Eder, Bass Máster, foguetiador maximo da ordem dos 6 cordas, embarcar no seu vôo para Bel City, as 21:00. O mesmo vôo para o qual eu estava esperando uma vaga. 

Ou seja, eu talvez tivesse a oportunidade de viajar ao lado do meu companheiro de semi-colcheias e fazer um retorno triunfal para o inferno. Orra, saiu melhor que o combinado.

E foi com um sorriso mecânico que o funcionário da TAM me revelou que, de fato, havia uma vaga no dito vôo e, com o mesmíssimo sorriso, falou que eu não podia embarcar. Ao meu olhar embasbacado, ele respondeu com um dedo em riste, apontado para aquele grande cubo de baixo na minha bagagem, embrulhado em uma película de oxigênio, hidrogênio, hélio e alguns outros compostos do ar. 

Perdi.

A minha única chance de não ter que passar 24h naquele lugar mal iluminado tinha se passado e, o pior de tudo, agora eu tinha um belo de um problema nas mãos: Eu não embarcaria nem no dia seguinte se eu não pudesse empacotar diretinho o cubo do baixo e sabe lá deus onde eu ia achar uma caixa que servisse. E logo Guarulhos, que é afastado de toda civilização. Imagine de caixas de papelão tamanho 15 por 15. 

Mas logo me deram uma dica – tava mais pra sentença – que na parte de trás de Guarulhos tinha tipo uma área para reciclagem (Ou seja, LIXÃO mesmo) que talvez tivesse algumas caixas que eu pudesse usar. E lá vou eu, com mala e cuia sobre um carrinho para achar a porra duma caixa.

O trabalho foi tedioso. Pilhas e pilhas de entulho, recheadas de caixas por todos os lados. Obviamente, nenhuma das caixas era do tamanho certo, sempre sendo um pouquinho menor em largura ou comprimento. 

O trabalho teria sido muito menos honroso se não tivesse um funcionário do aeroporto fazendo a mesma coisa que eu. Logo me contou que precisava de caixas para alguma mudança e nem pensou duas vezes. Se jogou no entulho a caça das cobiçadas caixas.

Mas eu estava longe de conseguir uma caixa decente e, sinceramente, remexer em entulho não é a coisa mais divertida do mundo…

To be continued

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