Psicodélica


Sobre Barcos e Ilusões
novembro 11, 2007, 4:24 pm
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“Que vivas em tempos interessantes” é uma antiga maldição chinesa na qual a palavra “interessante” poderia ser  melhor representada por uma pequena guerra civil ou alguma praga degenerativa. Viver em épocas interessantes tem o seu preço.

Rios de caos e desordem varrem os deltas por onde vive o pequeno personagem – pequeno na altura, mas não no valor nem na coragem. E ambos foram as muletas nas quais seu corpo cansado se sustentava e, sem elas, não haveria força nos curtos braços para manter o frenesi do machado que dançava a sua frente, como se possesso de vida própria.

Valor e coragem eram bons, mas meio inúteis sem um bom machado.

E muito provavelmente era dessa forma que pensava o grande artífice do oeste quando criou os grandes pais, duros como a rocha de onde tinham vindo, teimosos como o aço na têmpera. Muita coisa os ensinou sobre a forja e sobre as montanhas. Mas sobre armas – e sua necessidade – eles aprenderam depois. Sozinhos.

Das estrelas, nada eles sabiam nos seus salões subterraneos de pedra e o vento nunca chegou a balançar as suas barbas e sua voz se perdia nas encostas montanhosas. E do mar, aquele gigante azul que dele só conheciam alguns de seus milhares de tentáculos, tinham medo e eram surdos para a música das ondas.

Enquanto outros se perdiam em bosques – imortais enquanto existiram – e juravam seus amores sob o olhar da dama e da aguia, eles só conheciam o brilho da bigorna e do martelo e nem mesmo a obra de suas mãos lhe era tão interessante quanto o ato de moldar o humor dos metais e das pedras e muito aprenderam, mas muito pouco compartilharam.

E mesmo quando marchavam ao lado do belo povo, enfrentado ameaças comuns sob a mesma bandeira da liberdade, sequer compartilharam de seus fônemas nativos, exceto pelo brandir do hino de guerra. Foi também a unica coisa que dividiram quando atacaram os próprios aliados, no fim da primeira era do sol e da lua, destruindo as poucas coisas belas que haviam construido fora de suas cidadelas de pedra.

Eram solitários, belicosos e de amizade dificil. E talvez por isso sejam os únicos que, de todos os povos da terra, nunca se sentiram atraidos pelas luzes do oeste – esse lugar mágico que os homens haviam antes tentado conquistar e para onde fugiam os primogênitos.

De lá só sabiam as historias, as descrições das maravilhas e delas não duvidavam, pois aqueles que viram a noite prateada dos campos imortais, que se deitaram na planice de Tuna ou simplesmente vislumbrou as muralhas infinitas das Pelóri, tinham essas coisas todas registradas no proprio semblante e ninguem duvidava deles pois seus olhos brilhavam com a mesma luz daquela terra.

Mas eles nunca tentaram velejar para o além mar. Ao contrario, ele fugiam para leste e seus olhos estavam sempre voltados para a terra e suas riquezas. E do povo de lá, eles nada mais souberam, por muito tempo.

Mas eram tempos interessantes, e junto com o seu machado zuniam o movimento de duas laminas que queimavam num fogo azul, manuseada justo por um principe do belo povo, outrora tão afastado do povo dele. Mas lá eles estavam juntos, e lutavam mais uma vez pelo mesmo ideal.

E, tempos depois, quando estivessem cansados do ar e da terra, fariam o impensável: Velejariam juntos, além da circunferencia do mundo, para a terra dos imortais, que anão nenhum havia visto, nem realmente se interessado. Não existiu amizade maior no mundo. Menos que isso não seria o bastante.

E foi assim que Gimli, filho de Glóin, contra toda expectativa, andou pelas escadarias de Tirion, na terra dos imortais e pôde ver, ouvir e conversar com o próprio criador.

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