Psicodélica


A Alameda dos Violinos Tristes
outubro 18, 2007, 10:07 pm
Filed under: Outros, Review, Turist Guy

Triste

Carregar um contrabaixo de 7,5 kg e um peuqeno cubo de cerca de 10 kg. Era essa a minha tarefa de hoje – não como se todo dia eu me achasse carregado de obrigações e deveres. Meus dias em São Paulo tem sido calmos e, até agora, sem os fardos que a vida metropolitana impõem às costas humanas, fragéis e tortas. Mas hoje era diferente. Eu tinha uma prova pela frente e tinha que me virar com o meu equipamento.

A Usp, tal qual dito antes, é um local lindo de se olhar e de se andar. Suas árvores, saudando-me com milhões de flores amarelas derramadas na brisa fria, numa generosidade que apenas àqueles que nada faltam existe. Seus predios e seus alunos, suas ruas e seus trabalhadores, todos numa harmônia que, em outros lugares, me pareceria falsa, forçada. Aqui, ela me parece hospitaleira, aconchegante.

Não foi muito problema saber a parada a qual eu devia descer. Uma funcionária me guiou e, afastando-se de seu destino, me guiou até o local da prova. Pessoas alegres, todas a treinar, movimentos assimétricos, padrões por todos o cantos do braço de madeira, era um balé de mãos, uma sinfônia de sons que, apesar de nada diatônica, esbanjava criatividade.

Esperei por cinco minutos e entrei para meu teste. A música – A Suite N.1 para violoncelo de Bach – estava praticamente gravada a fogo no meu cérebro e, se eu não estava seguro de todas as partes, eu pelo menos tinha certeza que eu pôdia fazer melhor que muitos. Eu estava, até um certo ponto, seguro.

Segurança que ruiu à primeira olhada nos sorridentes e carismáticos julgadores – E isso pode parecer incoerente para o leitor que passou uma vida a vencer os desafios cruéis do cotidiano e passar em frente para o próximo. Para tais pessoas, àqueles que julgam nada mais são que meros expectadores de suas vitórias, seres com o único objetivo de lhe apertar a mão após um trabalho bem feito. Por outro lado, aqueles que na vida só experimentaram o amargo das perdas e ouviram os passos daquelas oportunidades que, por fraqueza ou por azar, deixaram passar, para estas pessoas, aqueles sorridentes professores mais pareciam um par de ceifadores vìs e cruéis, prontos a resumir todo o esforço alheio a uma mera anotação no caderno da vida e da morte, dos que seguem e dos que seguem a observar.

Idade, nome, qual a cor da parede atrás de você, blabla… Não aguentava responder as perguntas, os dedos me tremiam, talvez na esperança de livra-se da estranha dureza que os atacava. Os musculos do braço, similar aos dedos, exibiam um exemplar esforço contra a fraqueza muscular, distribuindo hormônios que os fariam tensos e prontos para as nescessidades de escape e luta – pois essa era minha situação. Eu estava acuado e desesperado. E foi assim que eu comecei a prova.

Sai da sala. As pessoas era as mesmas e suas músicas, de beleza não haviam perdido nada. A madeira de seus intrumentos continuava tão boa quanto antes sempre fora, se é que um bom violão vale a morte de uma boa árvore, que não é nem boa nem má de verdade, a menos que acreditemos nisso. Não, nada havia mudado, exceto eu, que agora andava num mundo mais cinza e um pouco mais frio – ou mais quente, como me pareceu mais tarde. Não havia sons por ali, só o vento a me sussurrar nos ouvidos coisas que eu não entendia.

Andando pelo corredor de árvores amarelas, nada me parecia muito real, nem sequer meu corpo que, como uma especie de criança sádica, havia a muito parado de tremer. Neste momento, como se cortasse a atmosfera de mármore, um violino que, por ventura do destino, havia se escondido em um lugar tão afastado e isolado, começou a tocar. Parecia triste, mas inconsolável. Tocava algo intangivel, coisa inclassificavel, tangente dos acordes e das tonalidades. Não era bonito, só solitário.

E foi ele o único a se despedir de min naquele momento e eu não podia pedir muito mais. Deslizei pela alameda como uma tartaruga, contrabaixo nas costas como uma casaca dura. Não olhei para trás, o violino já havia se calado. Não havia, muito menos, o que se ver. Não adiantava mais nada.

Estava cego e não sabia, surdo, mas não me importava o silêncio. Insensivel, mas isso me era mais vantajoso. Assim eu chegaria na pensão sem temer ser abordado por feliz criatura que estranharia tamanha tristeza. Não, por hora, melhor manter a mascara e seguir em frente.

Não que haja alguma vantegem nisso.

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