Psicodélica


As Aventuras de Zeba
outubro 14, 2007, 12:01 pm
Filed under: Sarcasmo, Turist Guy

Av. Paulista

Acho que eu fiquei devendo alguns posts engraçados sobre as aventuras do pequenos caipira à grande capital brasileira. Infelizmente o meu humor tem sido, ultimamente, reduzido a um estado que não faria nem cocegas ao mais bem humorado dos retardados.

Mas, talvez mais por uma especie de obrigação tirana do que um prazer, me vejo impulsionado a pelo menos um breve relato das minhas andanças pela cidade dos predios altos. Aliás, altos e retangulares, altos e trinâgulares, altos e hexagonais, etc. Tem para todos os gostos e foi o bastante para me deixar babando em estado de inanição por algumas horas. A Av. Paulista foi uma das maiores impressões que eu tive em São Paulo.

Ora, pudera, logo eu acostumado a ter como centro comercial uma rua mirrada, com uns prédios caindo aos pedaços, implorando por atenção de alguem, sendo sufocados pelos gases funebres que centenas de onibûs sucateados expelem enquanto rangem tentando cumprir a tarefa de levar milhares de pessoas mal-educadas e ignorantes do ponto A ao ponto B – e as vezes ao C.

A Av.Paulista, desde o primeiro momento que eu a encarei de madrugada, o corpo a tremer de um frio tremendamente aconchegante, sabia que aquilo era um bastião do progresso brasileiro, um simbolo esculpido em pedra e vidro do quanto conseguimos avançar em direção a uma sociedade mais digna, justa e igualitária.

Mas, por mais bonita que seja, dá pra ver que a gente ainda não andou muito.

Fui à Usp também e me senti envergonhado de lembrar da pequena e triste Ufpa, com seus predios nús, a espera de acabamento mais digno para um local que devia ser um centro de conhecimento e pesquisa. Tristes e cegos, alunos julgam bela a visão semi-apocalipítica da Universidade abandonada à margem de um pútrido rio, no qual boiam dejetos e lixo – joagados muitas vezes pelos proprios universitários.

Pois bem, eis que me deparo com um lugar não só bem cuidado, mas de fato bonito, adequado, com a grama aparada, prédios que parecem servir de fato para algo mais que acobertar um estupro, segurança, onibûs bem cuidados, agencias bancarias que se veriam em grandes avenidas belenenses dado o seu porte, etc. Basicamente, uma especie de paraiso universitário que poderia ser elevado à status de atração turistica se não fosse o tipo de infra-estrutura tão comun aqui em São Paulo.

Isso sem falar do diversas outras coisas que eu vi aqui que balançaram meu pequeno coração interiorano, que por egoismo ou por puro vislumbre, mal tem tempo para sentir saudade de alguma coisa na distante e calorenta Belém.

Mas, e isso era algo que eu já sabia, existe sempre um fator comun em todos os lugares, em todos os cantos.

Pessoas.

Por mais que eu me mude de cidade, por mais distante que seja a cultura na qual eu sou inserido, mesmo que eu estivesse na propria capital do Nepal a comprar mirra, eu ainda assim não teria ido muito longe nas escalas que não são medidas por espaços ou por grandezas ditas reais. As pequenas ranhuras da régua em questão, indicam calor humano, proximidade, aceitação, compreensão… Uma escala feita de pequenos sucessos pessoais e privados, que nada significariam senão para a própria pessoa que meça.

Não há para onde correr se você tenciona fugir de você mesmo. Nem na propria morte, que na sua imparcialidade, não divide a golpes de foice nossos lados bom e mal. Ambos caem junto conosco no escuro abimo do esquecimento. Àqueles que na sombra vivem, o sol, independente da longitude ou latitude, jamais verão. Não existe cidade que irá mudar você ou aqueles ao seu redor.

Pelo contrário, o movimento é justamente o de piorar com o aumento da massa humana, como se quanto mais gente, maior é quantidade vapor pútrido que você sente pairando no ar. A hostilidade parece uma camada que eu cruzo e esbarro enquanto ando por entre becos e víelas.

É como viver numa bolha, cuja consistencia parece, de tao duvidosa, que lhe escapará com um mero toque, mas que temos medo de espocar pois deixamos a bolha nos levar muito alto e muito longe, e agora tememos a queda e o recomeço que será a pé.

Nada mudou. As vezes me vejo como se andando em Belém, como se a cidade ainda tivesse – e de fato tem – um poder magnético sobre min, ou eu sobre a cidade. Parece que meus estigmas, minhas antigas chagas, nunca poderão ser de fato curados e cicatrizados. É como tentar escapar de uma armadilha que se viveu a vida toda.

E, por essa angustia piorar como se progressivamente me faltasse o ar, a cidade exerce pressão à min. Tenta me mudar para algo que não necessariamente eu aprovo, mas me parece dificil demais resistir. Este imenso bloco de concreto, adiministrado por mais de 14 milhões de almas, exercem um peso de tal forma intenso e bruto o suficiente para fazer com que meus pilares pessoais tremam diante do esforço de manter essa débil estrutura que chamo de minh’alma.

Eis meu estado atual em São Paulo. Não tão melhor do que em Belém, mas não tão ruim assim para me fazer QUERER voltar.

Estou indo fazer agora a minha prova de música da Usp – que é o que vai mais ou menos determinar o que vai acontecer comigo. Belém ou São Paulo, eu não sei. Mas eu tenho a crença de que, whatever happens, eu mereci isso.

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