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Hoje, numa situação especial, gostaria de apresentar uma interpretação para duas músicas (três, na verdade, mas chegaremos nisso) cujos temas e desenvolvimentos me parecem dignos de uma analise mais depurada. O fascínio que ambas as músicas exercem sobre mim parecem adivir de alguma fonte que não consigo muito bem delimitar, imagino que talvez destrinchando ambas as músicas – feito porcos no açougue – me ajude a um entendimento pleno do por que estas músicas têm um efeito um tanto que hipnotizador sobre mim. Ou não. Em frente…
As músicas são One Time e Inner Garden (I e II) do disco Thrak da banda King Crimson. Acho que podemos falar um pouco da banda e fazer uma rápida análise da estrutura da composição de ambas as músicas. O KC (e assim irei me referir a eles, por pura preguiça) é uma das bandas de maior longevidade na história do rock progressivo, atuando desde os anos 60. A banda, fundada em Londres, passou por inúmeras reformulações durante sua historias, com quase duas dezenas de instrumentistas que já passaram pela banda. Neste CD especifico, temos um line-up de seis músicos que formam algo como uma dupla de trios.
Não vamos nos alongar aqui. Se você quiser mais informações sobre o KC, você pode encontrá-las na pagina deles na Wikipedia, clicando aqui.
Comecemos então por One Time, composição que me parece mais tranqüila para uma analise, tanto musical quanto do seu sentido. Sua estrutura harmônica é simples: Quatro acordes da tonalidade de Dó menor se alternam em um 6/8 constante. Existe um empréstimo modal no refrão (quando se usa um Sol maior, da tonalidade de Dó menor harmônica) e este é a única mudança tonal que a música oferece.
One Time não é de forma alguma uma música complexa. Bateria e baixo provem suporte solido e relativamente constante em sua forma para as guitarras que fazem o tema da música (que é um dedilhado que explora os acordes que se repetem durante a música toda). Eu poderia me arriscar e dizer que a força da música viria a reduzir-se na sua letra e apenas nesta, mas imagino que isso seria um tiro no pé cedo demais para minha analise. Posso deixar a parte polêmica para depois. Vamos à letra, portanto. Farei esta analise da seguinte forma: Apresento cada estrofe da letra e irei discutir cada uma com um comentário logo abaixo dela.
One Time
King Crimson
A música fala sobre desespero, basicamente. Frente à fragilidade humana e a hostilidade da vida, só basta ao sujeito levantar a mão de misericórdia, apelo este feito a um outro que nem sempre está disponível à nossa demanda e ao nosso sofrimento.
one eye goes laughing,
one eye goes crying
through the trials and trying of one life
É impossível não associar este primeiro parágrafo com a clássica imagem das máscaras do teatro. Estas são caracterizadas por duas máscaras, uma chorando e a outra rindo – mas existem muitas versões que condensam ambos os elementos em uma única mascara, cuja primeira metade apresenta as feições alegres e a segunda a triste.
Claro, é um parágrafo sobre de como a vida é formada desses dois pólos opostos: Felicidade, satisfação, desejo e, do outro lado da moeda, dor, frustração e morte. Mas creio haver aqui um elemento a mais da mascara: a sua anonimidade, a qual empresta ao personagem da música não só um caráter universal (como os antigos gregos usavam a mascara para retirar a individualidade do personagem para infligir maior identificação da platéia), mas também retira sua própria história, seu rosto e lhe joga no mundo onde a busca pela própria identidade geralmente podem ter resultados nada positivos ao sujeito.
Como diria Sören Kierkegaard, o desespero parece ter um motivo externo ao sujeito, mas apenas por um momento. O que viria a ser este desespero, por fim, é o horror de si próprio, de não suportar sua própria imagem especular. Esta mascara, portanto, denota o desespero do personagem, de ser o que é (mera imagem humana, sem individualidade ou historia própria). Mas teremos que fazer algumas associações com parágrafos posteriores para que este ponto tenha maior embasamento.
one hand is tied,
one step gets behind
in one breath we’re dying
O sujeito está preso por algo e, numa imagem improvável, o passo que o levaria a frente o leva para posições anteriores. Somos livres, afinal? O quanto eu não sou determinado por onde moro, com quem vivo e por quem me criou? Muitas vezes, somos tão alheios a nós mesmos que sequer notamos que andamos em círculos, damos passos falsos a frente e vivemos como que presos por algo.
E, de repente, morremos. Infelizes, geralmente.
i’ve been waiting for the sun to come up
waiting for the showers to stop
waiting for the penny to drop
one time
Começa o refrão. Este trecho em particular mostra uma súplica do personagem. Por ajuda, por melhores vidas, por redenção, qualquer coisa que pareça trazer alívio. Não nos interessa saber qual a enfermidade que aflige o sujeito aqui. O mal é existir e desse mal, todos os humanos buscam conforto. Aqui o personagem espera (e vem esperando há muito tempo, ao que parece) pelo sol nascente – símbolo natural de esperança, calor, que afugenta a escuridão.
Logo em seguida, vem um simbolismo que eu não consegui depurar em muita coisa. Que significa “Waiting for the showers to stop”? Realmente eu não consigo sequer ter idéia do que isso possa significar. Fica aqui o “umbigo” da interpretação, como diria Freud. Um ponto que eu não consigo ir muito além na interpretação.
Seguindo, o personagem termina esta estrofe falando que espera “o centavo cair” (numa tradução livre). Na tradução oferecida na Internet aparecia uma tradução de “penny” como sendo “orvalho”. Apesar de pesquisar sobre qualquer ocorrência desta palavra no sentido citado, não encontrei nada. Deduzo, portanto, que seja mais um caso de má tradução (não confiem na internet, rapazes). Considerando aqui a tradução “centavo” eu dou a seguinte interpretação para a imagem: Um mendigo. Este mendigo agoniza nas ruas, anda sujo e maltrapido, indefeso contra frio, calor, fome ou violência. O mínimo que ele pode esperar são os pequenos centavos, que caem da mão daqueles que podem dar para as suas. A relação de verticalidade aqui encontrada (aquele que recebe está com as mãos abaixo daquele que dá) não deve ser ignorada e demonstra o que o personagem, em situação desfavorável, espera: o mínimo de atendimento a uma necessidade humana de atenção, de ajuda.
and i’ve been standing in a cloud of plans
standing on the shifting sands
hoping for an open hand
one time
No parágrafo final, o apelo é substituído pelo personagem falando de sua posição, através de imagens bastante oníricas. Para estas, eu creio que o seguinte entendimento se encaixa na descrição que estamos fazendo aqui: O personagem se encontra em uma “nuvem de planos”, o que me parece ser as constantes maquinações que elaboramos para nossas vidas, todos os nossos planos que sonhamos. Mas a verdade é que todos acabam se tornando apenas isto, planos. Não se materializam, tornam-se como o éter que preenche o universo, uma nuvem que podemos ver, mas não tocar.
Prosseguindo, o personagem se diz parado em “areias que mudam” (tradução muito literal, talvez, do termo “shifiting sands”). Sem hesitar, eu digo que isto é também outra metáfora para a vida do sujeito, que se ergue sobre areia, mais um daqueles elementos que são quase incorpóreos, difíceis de agarrar e, no caso, que costumam desmoronar sobre os pés daqueles que muito confiam neles.
A música encerra com a frase “esperando por uma mão aberta” e a repetição do termo “uma vez”. E é o que se espera, afinal. Uma ajuda sincera – uma espera que já tem longa data e não tem fim definido. Pelo próprio termo “uma vez”, seria correto vir a pensar que seria pela primeira vez, já que o sujeito da música desvenda sua condição de desespero e solidão no mundo. Mas, para este sentimento, não existe ajuda. A espera é fútil e a música termina de forma a denunciar esta espera com um fade-out, ou seja, sem um fim definido.
Agora, chegando aqui ao fim da análise, me faço algumas perguntas: Poderia ser o sentido desta letra que tanto me atraiu? Mas como, se à primeira audição eu senti uma afinidade imensa na música, sem ter visto letra ou analisado qualquer coisa. Poderia a música comportar o sentido expresso na letra?
Bem, fiquemos com essas perguntas para o próximo post.
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Esta semana, eu dei bastante de cara com o trabalho do ex-queridinho dos cults cinematográfico M. Night Shyamalan, criador de filmes tão opostos (principalmente no sentido qualitativo) quanto “O Sexto Sentido” e o “A Dama na Água”. Fui para uma exibição do seu filme “Unbreakable” (“Corpo Fechado” para nós, único filme que a tradução do título supera o original) no cine Líbero Luxardo (cortesia da APJCC) ao qual se seguiu uma pequena discussão sobre o filme e, conseqüentemente, sobre o próprio Shyamalan.
E fiquei completamente surpreso frente à boa vontade dos curadores da exposição frente ao trabalho recente do diretor.
Pensei então “bem, talvez seja o meu mau humor me impelindo contra o Shyamalan”, mas não parecia muito provável, já que, seja lá o que eu sinta pelo diretor, não tem gosto de mera antipatia mas sim de uma decepção, a qual eu venho digerindo ao longo de alguns filmes dele, principalmente a “A Dama na Água”, um filme que assisti com grande expectativa (até ali, as obras dele me pareciam bem autenticas e sempre me agradaram muito) e devolvi para a locadora com a sensação que eu teria me dado melhor se eu tivesse usado o dinheiro para comprar crack estragado e fumado na frente de uma unidade da ROTAN. O filme é terrível e essa impressão não me deixou até agora. Resolvi então conferir o que “as internets” acha do Shyamalan e, bem, este gráfico que surgiu em uma das paginas que li resume bem a opnião geral sobre ele:
Jesus, eu sequer sabia que “The Last Airbender” e “The Happening” eram dele, e ambos foram mais decepcionantes que anuncio de aumentar o pênis em sites pornô. Agora eu entendo por que.
Aqui tem um ótimo comentário sobre a ascensão e queda do autor (infelizmente em inglês) que reproduz a minha própria opinião acerca do ShayShay: um autor que não conseguiu superar suas premissas iniciais, tenta desesperadamente reproduzir o que conseguiu com “O Sexto Sentido” e “Corpo Fechado” e ignora rudemente todas as críticas feitas ao seu trabalho. Uma pena. Destruiu muitas boas idéias no seu caminho, junto com uma das melhores series animadas da Nick.
A Antares Audio Technologies certo dia criou o Autotunes, terror dos vocalistas afinados, salvador dos incompetentes – e uma ferramenta muito interessante para os oportunistas. O rapper T-Pain usou o Autotunes de uma forma diferente: Ao invés de otimiza-lo para correção do pitch de forma suave, ele alterou os padrões de correção para rapidos e escrachados, criando um efeito que todos nós conhecemos e muitos adoram. Vamos a um pequeno exemplo:
Sim, sou eu cantando, com uma voz terrivelmente desafinada – o que no casa, apenas acentuará a ação do autotune.
Esta segunda já é o arquivo tratado com o autotunes e com um pouco de reverb e delay. Aqui já dá para ver exatamente do que estou falando. Sim, sim… Justin Timberlake, 50 cents, Timbaland e até mesmo a Cher (que foi a primeira a usar a coisa, diga-se de passagem). Esse timbre pode ser ouvido com maior ou menor frequencia no trabalho de todos, especialmente no daquele irritante Kenny West! Sim, ele talvez seja o representante do ápice deste estilo de som do vocal robótico.
E finalmente o mesmo vocal, com um pouco de compressão e alguma besteira de bateria por trás. Ainda que o trabalho de Áudio por trás destes artistas seja brutalmente mais complicado que simplesmente isso, já é possível ter esperanças de lançar o seu próprio ”Suuuuuicidaaal, suiiiicidal…” da vida.
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Eu poderia vir aqui para falar coisa mais interessantes (ou não) como o natal, mas ao invés disso, resolvi compartilhar uma dica com vocês, coleguinhas:
Difícil achar alguém que não goste de House e a sua sarcástica visão de mundo e da medicina. Mas achar alguém que goste do seriado por que de fato entende e gosta das reviravoltas médicas, ora, eis aqui algo difícil de achar.
E adivinha o que eu achei. ;D
O site Polite Dissent é uma mistura de revistinhas, televisão e medicina. A mistura rende diversos posts interessantes. Mas a melhor parte são os reviews médicos de séries como House e Fringe, que lidam com medicina de ponta. Como é óbvio – mas nem sempre facilmente aceitavel – House erra (e feio) em diversos momentos da série.
Confira aqui. E por favor, por mais que House seja só uma farsa aberrante como médico, ele ainda é um messias dos arrogantes e sarcásticos, que é o que de fato faz a série ser genial. Portanto, nós ainda te amamos house, mesmo você não sabendo nada de diagnósticos. s2
Existem certas desvantagens em morar com anime-maníacos, como as irritantes e histéricas vozes japonesas que vivem ecoando pela casa ou aquelas pilhas de mangás constrangedores (Vampire Princess, por exemplo, um apelo construtivo à egomania das pessoas) empilhados aleatoriamente pela casa. Nada muito sério, já que eu próprio sou meio que um ex-fã da galera de olhos grandes e poderes cafonas.
E, de vez em quando, eu acabo acompanhando uma série ou outra que trazem aqui para casa. Tento resistir amiúde, sentado no meu pequeno netbook, concentrado em tentar fazer a maldita tarefa acadêmica proposta. Mas aquelas vozes irreais, com entonações improváveis (como alguém pode falar daquele jeito¿ Como é possível¿) me capturam pouco a pouco. Reconheço todos os clichês clássicos do gênero, mas eles não esgotam a sua capacidade de me atrair, por mais imbecis e tolos que sejam. Quando dou por mim, estou sentado na frente do monitor, junto com o meu colega de quarto, torcendo por um herói infanto-juvenil.
Ora, que atração é essa que o Anime exerce nas pessoas, principalmente nas mais jovens? A identificação com os personagens – independente de serem os protagonistas (sempre belos e com penteados exóticos) ou os vilões da história (que tendem a apresentar uma aparência austera) – é de uma força sem igual em outras animações (como as HQ’s americanas). Porque, mesmo quando o maldito desenho parece ter sido feito para pessoas com um par de cromossomos a menos, a trama é muitas vezes irresistível?
Creio ter encontrado uma provável solução ao problema em Freud.
(Aqui seguem-se as vaias e berros do público. O autor, apesar de acreditar em criticismo destrutivo, reserva para si o direito de se esquivar dos ovos podres e dos tomates fedorentos)
Não me venham com choro. Freud, aquele judeu safado, é o criador da psicanálise, mais conhecida como “adisciplinamaisfodaquevocêumdiavaiquereraprender”. Dentre os milhões de conceitos, vamos ao que nos interessa para o presente problema: o Complexo de Édipo, terror das famílias puras e castas.
Ao contrario do que se pensa, o Complexo de Édipo não é uma mera suruba entre pais, filhos, mães, tias e avós (urgh!). Sinto desapontar a galera do “mature”. Na verdade, o Complexo é o triangulo amoroso que, em determinada fase da vida da criança, é criada em torno das figuras paternas e o filho do casal. Esta fase é caracterizada pelo direcionamento das energias eróticas da criança em direção ao progenitor do sexo oposto e a agressividade dirigida ao do mesmo sexo. São derivados da resolução (ou não) do complexo as nossas escolhas de gênero e os modelos de pessoas com as quais iremos nos envolver posteriormente. Não é sempre, mas geralmente nossas escolhas sexuais acabam caindo em mulheres com traços semelhantes à do nosso primeiro objeto de desejo: Nossas mães.
O que chamamos de resolução do complexo é o momento no qual somos efetivamente privados deste primeiro objeto sexual. Vivemos em uma sociedade na qual dar uma fodinha com a mamãe não é lá muito aconselhável. Basicamente, umas das marcas da civilização humana é o horror ao incesto. Como falou-nos Engels – amigo daquele outro barbudo, Marx, que juntos fizeram aquelas lendárias Soviet Parties do inicio do Sec. XX – um dos grandes marcos da história humana é quando a família consangüínea (também chamada “suruba total”, “pegação na night”, entre outros, com o qual designamos relações sexuais livres a todos, independentes de laços familiares) desaparece, dando lugar a outras formas de famílias nas quais foram proibidas as relações entre pais e filhos e, posteriormente, entre irmãos e irmãs consangüíneos.
Portanto, o desejo incestuoso do filho (que, de certa forma, é correspondido pela mãe, ela própria influenciada pela sua historia edipiana) não pode se realizar. A figura paterna tem função primordial enquanto imposição das leis sociais (não só o repudio ao incesto, mas também de todas as normas e condutas sociais) e separação do vinculo mãe-filho. A isto, chamamos “Castração”, que se dá em diferentes formas para homens e mulheres. Manteremos aqui o foco nos homens, já que estaremos aqui falando dos mangás e animes que tem como maior público os homens, sendo estes de composição bem diferente daqueles feitos para o público feminino – que poderemos analisar em outra oportunidade.
A castração tem efeito devastador na psique do menino. Reprime as energias sexuais primordiais de tal forma, que a criança sentirá um desprazer e nojo imensos da idéia do incesto – apesar de que tais energias jamais são suprimidas, encontrado caminhos na psique até outros objetos que possam substituir o primordial, no caso, a mãe.
E o que isso tem haver com Anime, hã?
Como acabamos de dizer, é impossível a supressão das pulsões sexuais em direção à mãe do menino. O que se faz é uma repressão, o que significa que esta encontrará outros caminhos para se satisfazer. Caminhos estes que, simbolicamente serão parecidos com o triangulo edipiano enfrentado pela criança.
E assim, podemos formular a seguinte tese: toda história tem, em sua trama, componentes que remetem a esta formação primordial do psiquismo. Esta aproximação faz com que a trama seja mais ou menos forte para nós. Freud, no texto “Moises e o Monoteísmo”, fala que a composição da história de vida de grandes nomes da história são baseados em identificações edípicas.
Ora, é impossível não fazer uma analogia de mesmo caráter aos animes. Emprestando das analises de Freud, vamos fazer o mesmo com o enredo padrão da grande parte dos animes para adolescentes homens. É geralmente notório um personagem central de índole boa, mas geralmente fraco, tolo ou com algum defeito de nascença. Este tem um desejo, um sonho ou objetivo no qual se vê barrado por forças externas às suas. Geralmente um desentendimento no local onde vive o força a abandonar o lar. Ele encontra refugio entre novas pessoas (uma nova família) onde geralmente treina para ficar mais e mais forte até superar seus algozes e seus próprios limites. Ao final da trama, alcança seus objetivos e derrota não só seus inimigos, mas suas limitações também.
Muitos poderiam colocar grandes criticas a este quadro generalizado das tramas de desenhos. Com razão, os modelos teóricos são geralmente muito pouco úteis para o entendimento geral se não colocados em pratica de forma mais simples. Assim, me proponho a, resumidamente, analisar três animes de grande popularidade e demonstrar os elementos edípicos que estão inseridos na trama deles. Vamos ao primeiro:
Dragon Ball
Trama Básica: Goku é um alienígena que foi abandonado na terra por motivo inicialmente desconhecido. Foi adotado por Son Gohan, que o criou como um humano. Acidentalmente, o próprio Goku o mata, ao se transformar num imenso macaco. Posteriormente, Goku treina com um velho (mestre kame), superando inimigos continuamente mais poderosos.
Em um ponto futuro da trama, Goku descobre sua origem alienígena e sobre as intenções que levaram seus pais a abandoná-lo num planeta desconhecido: Ele era uma arma de extermínio contra a população da terra.
Trama Edipiana: Freud comenta que, nas histórias clássicas, a dissociação do personagem entre duas famílias – uma boa e outra má – geralmente mostra a dualidade do individuo com sua própria família: Ora é a alvo de sua agressividade, ora de seus carinhos, especialmente a mãe. Obstante, é visível aqui, esta mesma diferença: A família original má, que abandona o seu filho em outro planeta (remetendo à própria castração, enquanto senso de abandono materno) e a boa família, que é a expressão boa de nossos progenitores.
Mais além, a história mostra que Goku era inicialmente, quando criança, muito violento. A sua mudança de temperamento contra o avô (terrestre) só se deu posteriormente, quando caiu de uma grande altura e bateu com a cabeça em uma pedra, perdendo seu instinto destrutivo – um referencia mais clara à castração, só se Goku decepasse o pinto do Picollo.
A questão da família má ainda retorna mais uma vez, quando Goku se vê enfrentando a sua própria raça – que podemos muito bem enquadrar enquanto sua família, já que o primeiro dos alienígenas que retornam é seu irmão, um substituto simbólico do pai, o qual é morto por uma técnica que perfura seu corpo, numa referência a poderes fálicos e vontade de penetrar no corpo do pai como este faz com a mãe – e derrota a todos, numa clara evidência ao desejo de subjugar o jugo opressor e castrador do pai mau que o separa da mãe.
O desejo destrutivo em relação aos pais é também muito claro na morte de Son Gohan (avô) pelo próprio Goku, que quando olhou a lua e se viu possuído por uma força alem de seu controle e compreensão (desejo incestuoso) matou o próprio criador (seu rival para a posse da mãe). Esta força simbólica conferiu a Dragon Ball e todas as suas outras franquias um sucesso mundial estrondoso.
Naruto
Trama Básica: Naruto é um jovem que mora na vila de Konoha (ou algo assim). Tal vila é devotada ao treinamento de ninjas de diferentes níveis. Naruto tem o sonho de se tornar Hokage, que é o mais alto posto da vila, mas é constantemente tido como alguém sem talento e sem dedicação.
Naruto é, na verdade, uma espécie de prisão para um ser mitológico e poderoso, de onde tira forças para sobrepor seus inimigos – uma força maligna que havia matado o Hokage anterior. No decorrer do seu treinamento, Naruto fica mais forte e vai, um a um, sobrepondo seus inimigos e ultrapassando seus limites.
Um ponto essencial da trama é que o amigo de Naruto, chamado Sasuke, se afasta do grupo para completar seus objetivos próprios. Naruto, que acredita que o amigo está cometendo um erro, também se lança ao resgate de Sasuke. O anime e o mangá continuam em produção.
Trama Edípica: Naruto não conheceu os pais – Sequer teve pais, como é revelado algum tempo depois na historia, sendo ele meramente uma forma de conter um ser de grandes poderes denominado “Kyuubi”. A ausência de um núcleo familiar já denota o seu caráter faltoso, delituoso para com a criança, que deixa Naruto por um bom tempo sozinho e sem ninguém para ampará-lo, uma característica central da sensação de castração com a qual o personagem principal luta desesperadamente contra – e simbolicamente, claro.
Na ausência desses, vários personagens lentamente se juntam e se tornam o núcleo familiar de Naruto: São eles os treinadores, amigos de grupo e outros que, impressionados pelo poder de Naruto, começam a admirá-lo e segui-lo. Estes constituem a “família boa” e “humilde”, a mesma que Freud identifica na família que amparou o jovem Moisés.
O que, faz-me lembra, uma diferença gritante entre vilões e mocinhos em grande parte dos animes: O caráter opressivo e arrogante dos vilões e a calma, serenidade e humildade dos mocinhos. Mesmo quando alguns dos vilões apresentam as características humildes dos mocinhos, é uma indicação (que quase sempre se materializa) de que este “passará” para o lado dos mocinhos. O inverso também é verdadeiro, enquanto mocinhos arrogantes tendem a virar vilões na historia. Tal fato só condiz com a indicação de Freud citada em que o protagonista se divide em “família boa” e “família má” e a trama se desenrola enquanto o personagem se vinga da família má e usa a boa para ampliar o seu caráter heróico – e tal divisão, em animes, tende à forte divisão entre “bem” e “mal” que nestes existem, simbolizando cada um dos lados familiares.
Mas exatamente nesta família boa que Naruto apresenta, existe um elemento de castração, de quebra de vinculo: O jovem Sasuke rompe relações com o protagonista – demarcando simbolicamente o que chamamos de “ferida Narcísica”, um elemento principal no evento da castração que é nada mais que a ruptura do ideal de “eu” perfeito – e estes se lançam em combate mortal, defendendo forças antagônicas: Naruto luta para manter a coesão do núcleo no qual Sasuke faz parte e este, por outro lado, visa romper com este.
Neste momento, Naruto e Sasuke são meramente lados opostos de uma mesma moeda, lutando cada qual para defender seus objetivos: Um quer manter o vinculo com o grupo (Relação mãe-filho, inabalada pela ação do pai) e Sasuke quer romper com estes, simbolizando a castração e a relação pai-filho no contexto edipiano.
E nada mais natural do que o que apóia Naruto contra os poderes avassaladores de Sasuke: A Kyuubi, uma força oculta dentro de Naruto, que libera intensa fúria e raiva em forma de poderes incontroláveis e que, mesmo assim, não foi ainda liberada de todo. Neste contexto, a Kyuubi não é nada mais que a pulsão sexual em direção à mãe (simbolizada pelo grupo de Naruto) que é constantemente reprimida (assim como a própria kyuubi é reprimida no interior de Naruto) mas nunca suprimida, liberando cada vez mais poder na busca de naruto pelos seus objetivos – que devo frisar aqui, é a união incestuosa com a mãe.
Não é de se surpreender que Naruto é uma das maiores franquias do mercado de animação japonesa. O simbolismo nele inscrito é gritante e gera um apelo imenso dos fãs.
Samurai X
Trama Básica: Kenshin é um samurai andarilho que vive no Japão do século XIX. Ele viaja sem nunca parar em canto algum, ajudando pessoas sempre que pode. Kenshin possui um juramento próprio: jamais usa sua imensas habilidades para matar alguém. Tanto é que sua espada não possui uma lamina normal: Ela é uma variante da espada japonesa tradicional, que tem a lamina na parte anterior da espada, impedindo Kenshin de matar seus oponentes.
O protagonista encontra então encontra Kaoru, a dona de um dojô em decadência na cidade de Tókio, a qual ajuda a se livrar de um malfeitor. Assim começa uma longa relação entre ambos, no qual ela descobre que Kenshin, na verdade, é um famoso assassino de uma recente guerra e que seu juramento é uma expiação contra as mortes que causou no campo de batalha.
Trama Edípica: Samurai X é tão carregado de simbolismo que chega a doer na vista. Ler o Mangá é quase uma experiência de regressão, dada a simpatia para com os personagens. Ou seja, fans de Kenshin: Quando vocês lêem o mangá ou vêem o anime, vocês estão na verdade transando com as suas mães, lembrem disso.
Comecemos pela proibição à morte, tão explicita e evidente nas ações de Kenshin. No decorrer de todo o desenho, Kenshin luta contra esta pulsão, mesmo quando defrontado com situações mortais. Tal proibição tem um caráter quase obsessivo. Eis aqui o impulso sexual, com o qual o personagem será defrontado e testado constantemente no decorrer da narrativa.
Mas tal característica não poderia ser Per se uma simbolização da pulsão incestuosa se não fosse direcionada de alguma forma para algum objeto simbólico na trama. Mas pouco a pouco destrinchamos a estrutura na qual este desejo repousa: Kenshin aparentemente utiliza esta proibição para manter sob controle o seu instinto assassino, que em situações extrema tende a despertar, causando quase sempre incidentes nos quais a leis é violada. Eis aqui o incesto.
Podemos entender Kenshin não como um personagem que passa pela fase edípica da infância, mas por alguém que já passou por ela. A inscrição das leis no psiquismo – aqui entendidas como a lei do “não matarás” em Kenshin – denotam um complexo já resolvido, mas de forma tumultuosa e não satisfatória.
Kenshin era um assassino. Teve a familia morta durante as guerras anteriores e foi cuidado por um mestre severo, que o ensinou as artes da espada. Por vontade própria – e contra a indicação de seu mestre – Kenshin resolveu lutar na grande guerra, se tornando uma lenda pela habilidade na espada e a grande quantidade de vitimas que causou.
Talvez, possamos compreender o personagem central como simbolicamente lutando contra um Édipo mal resolvido. Após o fim da guerra, kenshin sente um forte sentimento de culpa pelas ações empreendidas e resolve expiar seus pecados. Eis aqui um elemento novo, uma dose de culpa pelo incesto obtido, simbolizado no desenho pela época de matança incontrolável e horrores citadas por Kenshin.
E aqui encontramos uma grande diferença entre este anime, e os citados: Aqui, a culpa tem função primordial no desenvolvimento do personagem. Kenshin não luta para superar seus inimigos – pois é notório no desenho que estes não são páreo para suas habilidades desde o início – mas sim para superar a culpa avassaladora. Onde os outros animes acham satisfação, neste encontramos apenas o sentimento de culpa de Kenshin.
Esta culpa, uma transfiguração do superego freudiano (o superego freudiano é uma instancia psíquica a qual Freud afirma ter função de introjetar as leis e normas da sociedade) só pode existir num contexto pós-edípico. Como citado acima, Kenshin mais parece alguém lutado contra suas obsessões e conteúdos reprimidos do que necessariamente alguém passando pelo Édipo.
Os posteriores adoecimentos de Kenshin, em parte por um evento posterior no qual Kenshin acredita ter matado uma pessoa querida, mostram uma espécie de adoecimento psíquico, uma neurose clássica. Ao perceber que violou o código, Kenshin cai em profunda depressão. A incapacidade de aceitar (ou de acessar diretamente o inconsciente e seus materiais, no caso) o incesto passado aparentemente chega ao ápice neste momento da trama.
Mas Samurai X merece uma análise muito mais detalhada do que a que eu estou querendo dispor aqui num simples tópico de um blog obscuro. Mas creio que aqui se fez o ponto necessário: O apelo de boa parte dos animes masculinos vem de seus conteúdos secretos, que são atrativos ao nosso inconsciente, que está sempre procurando formas de descarregar energia psíquica, aqui através dos materiais invisíveis da trama.
Perguntas?
Foda-se você então.
Tava tão “nem ai” para esta merda que nem vou me incomodar de usar a logo do festival do ano passado para ilustrar este post.
Como sempre, meus comentários podem ser taxados de “tendenciosos” e “cheios de maldade”. A unica explicação para tamanha infâmia, imagino, deve residir no fato de que as pessoas que falam tais coisas devem ter sido, alguma vez, alvo de meus comentários tendenciosos e cheios de maldade. Coisas da vida.
Bem, um monte de gente inútil já falou o que tinha que ser dito sobre as baboseiras e ”rockeirisses” pertinentes ao festival, ainda mais por que tais pessoas devem ter ido a todos os dias do festival. Eu fui só no domingo.
Por que me deram convite.
Não me era possível, particularmente, sentir mais desinteresse pelo festival, suas bandas e atrações. Dizem que houveram bons shows. Não sei. Pergunte para a galera do “E as melhores banda foraaaaaaaaaaam…” supracitadas ai. Não que eu não adore transformar eventos “culturais” em disputas egomaniacas por títulos desprezíveis e narcisicos, mas eu não estou muito no humor da bajulação.
Não, não, eu só queria ficar bêbado. Jesus, isso é pedir muito?!
E eis a faceta que eu gostaria de discutir do festival. A parte dele em que o jovem rapaz – estereotipadamente negro, com tênis da Nike e camisa da Adidas – oferece prontamente seus serviços de traficante de pó, do THC distribuído como se fosse a hóstia hyppe, etc…
Pareço estar jogando pedra, não? Logo eu, o bebum?! Não, amigos, longe disso. Pelo contrário: Cumprimento-os. Saúdo a todos que ficaram chapados durante o evento, que ofereceram cocaína ao desconhecido no banheiro (caridade!), que, na falta de efetiva seda, usaram o papel da programação do festival para bolar o preto, que entraram com garrafas de cachaça, vodka, santo daime (!!!) e outras coisas não-tão-licitas-neste-hemisfério. Obrigado a todos.
Pois, afinal de contas, que melhor prova do absurdo fracasso de um público para com seu festival, senão da completa alienação de um para com o conteúdo do outro, hã?
O que quero dizer com isso? Ora, simples: o festival pouco se lixava com quem era o seu público (ou o que usavam) e o público pouco se importava com quem fazia parte do festival. As bandas, analogamente, não poderiam dar menos atenção à ambos. Um era meramente o combustível dos prazeres pessoais do outro. O festival tinha o seu público – para dizer que “bombou” – as bandas tinham pessoas para bater palmas – e dizer que “quebrou tudo” – e as pessoas tinham barulho para praticarem suas excentricidades – e dizer que “arrasaram” no festival mais “bombação”.
“MAS EU AMO PATO FÚ, PORRA! FERNANDA TAKKAI, LINDA, GOSTOSA, FUDIDA, QUERO CHEIRA PÓ NA BUNDA DELAAAAAA!”
Eu sei, meu bein. Eu sei. Tinham as bandas que amávamos, compramos ingressos só pra vê-las e etc etc. Mas, da mesma forma que amamos o show deles, amamos também o show do Popsom (eram eles?), não amamos? De formas diferentes, talvez? Só pra curtir? Sim, talvez, mas ainda assim, ambos funcionaram de formas similares para um mesmo objetivo. O objetivo real de todo mundo que foi pra lá, a unica coisa que levou um público consideravel para aquele lugar dos infernos:
Vontade de se divertir.
“SEU PORCO FACISTA, FILHO DA PUTA, QUEM NÃO QUER SE DIVERTIR, SEU VIADINHO CHUPADOR DE …”
Calma, migs. Pegue uma saca de cem e se acalme. Não estou dizendo que há um problema nisso. O Se Rasgum, em ultima instância, não passa de entretenimento para as massas – vide a palavra “alienação” acima – e não há como fugir disso. Mas como se diverte essa massa que é a parte que me interessa. E não critico-a, devo ter que relembrar! Mas observo…
Não existe prazer na música em si. É necessário um mar de bebidas e outros vícios – no meu caso, o Sr. Presidente bastou, com alguns aditivos naturais – para um efetivo aproveitamento das atrações do festival. Não, não são todos, é verdade. Existem uns pouco (ou muitos, depende da visão) desafortunados, que não acham prazeres nos vicios mais antigos e parasiticos da humanidade.
Um minuto de silêncio para tais pessoas.
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Mas eis o ponto que quero chegar: O ponto em que o festival fracassa completamente. Seu público uma farsa. Suas bandas, meras iscas decorativas. Céus, se fosse possível alugar um local grande o suficiente e enche-lo de bebidas, pílulas e certas espécies vegetais e cobrar dez reais pela entrada, creio que conseguiríamos efeito similar ao Se Rasgum. Um monte de gente alucinada, suscetível a qualquer estimulo externo para pirar. No caso, bastaria um CD do Frank Aguiar e o botão de “Repeat” para entreter meio milhão de pessoas.
Mas, ora, chega disso. Estou até surpreso com o numero de palavras e carinho que estou investindo neste tema. Não, ignorem este tolo rabugento. Não sei o que digo, quero meramente a vossa atenção. E, falando nisso, sabe o que eu fiz quando anunciou Matanza no palco principal?
Dormi. E a namorada – apoiou. Ô bandinha ruim. Tão ruim que nem baixo ou vocal tinha. Seriamente, se fosse para ouvir banda que falasse de putaria, eu preferiria Velhas Virgens, que não só falam de bebida, mas também, no pacote, coisifica a mulher, reduz todo mundo a pica e boceta e – com lágrimas no olhos, afirmo – me faz lembrar a ideologia que pregava que as mulheres tinham duas funções no cosmos: Trepar e levar porrada.
“Foda-se a mulher porra. Eu… tô… CHAPADOOOO!”
Ah, porra. Assim é foda. Desce três bikes e uma Roskoff, por favor? Quero me divertir um pouco.

Finalmente um post sóbrio.
Que dizer do Show? Ora, redundante dizer que foi incrivel, que foi um show entre shows. Mesmo os “convidados especiais” fizeram shows impecáveis (Discutível,ok , mas…) e incriveis. Veja bem, que foi aquele tal de “CrafitíVerkí”, hein?! Genial. Não pode haver fã que saiu decepcionado dali.
Ou melhor, quase nenhum…
Não me atirem pedra! E tirem o dedo do gatilho, peloamordedeus. Claro que foi bom. Não irei criticar, pois não há o que criticar. Eram eles lá no palco, como sempre foram, tocaram de forma incrivel, melhor que em qualquer apresentação que eu possa ter assistido por videos ou áudio. Era o Radiohead no ápice da sua forma.
E, ainda assim, não me comoveu.
Mas eu sabia, ali parado, entre a multidão frenética que cantava, chorava, brigava para poder ver um pouquinho mais daquele show, que o problema não eram eles. Era eu. Havia algo de errado comigo. Soube disso no momento em que comprei o ingresso, mas não quis acreditar. Senti durante a viagem toda a mesma sensação, mas duvidei que ela pudesse persistir. Até o último momento eu, de verdade, achei que mudaria. Não mudou. E como poderia…?
Não, me senti distante daquilo tudo. As músicas continuavam ótimas, as letras ainda tinham aquele aspecto nebuloso que sempre ma haviam me atraído. Mas eu havia mudado. Mudado demais, percebi isso só durante o show. No meio de National Anthem desisti de esperar que algo naturalmente me arrebatase de tal forma que as lagrimas espontaneamente caissem – da forma como eu imaginava que deveria ser. Forcei uma viagem para dentro de mim mesmo.
Eu me vi retornando para uns sete anos atrás – não sei ao certo, datas, periodos… são coisas que normalmente escapam de mim – quando me apresentaram Radiohead. O Tusa fez-me esse favor. Ele estava lá também, em algum lugar naquela multidão. Não era mais o mesmo garoto de onze ou doze anos que, corajosamente, resolveu mostrar para mim, um retardado de quinze anos musicalmente acéfalo, o “Kid A”, CD polêmico da banda. Logo esse. Pensei com carinho no Tusa neste instante (e carinho não é sinônimo de “sexo anal” – não neste contexto, pelo menos). Imaginei o que ele estava sentindo naquele exato momento.
Torci para que estivesse muito feliz.
Em “Pyramid Song”, expectativa. Esperei com vibração que aqueles acordes, que muito magicamente embalaram quase toda a minha adolescência, viriam a despertar os sentimentos que eu esparava vir. Mas nada veio. Repentianmente, me senti solitário, vazio. Era com um sentimento de estranheza, de distanciamento, que eu acompanhei aquela música. Minha namorava vibrava, gritava. He… ela vibrava tanto quando eu a carregava, por cima do mar de cabeças, que chegava a me roubar um sorriso ofegante (carregar pessoas não é o meu forte). Ao menor contato visual com a banda eu podia sentir o pequeno corpo dela trepidar nas minhas mãos, graças a algum sentimento que era negado à mim. Eu sentia apenas inveja.
logo em seguida, “Karma Police”. Concentrei-me em pensar no que aquela música significava para mim. A imagem era clara na minha mente. Eu, quando estava aprendendo a tocar o violão. Os acordes eram atacados de forma precária. A mão direita tremia, descordenada com a esquerda. Não sabia o que fazer direito. A voz tentava desesperadamente alcançar as notas.
Mas a música era inconfundível. Karma Police… eu cantava pra mim mesmo, feliz só por ser. A tristeza era um alívio naqueles tempos. Paradoxal… mas era como as coisas se apresentavam naquela época. Eu era feliz por me sentir triste. Era como se aquele sentimento agudo, que pressionava a minha garganta em direção à boca, e da boca saiam as primeiras estrofes de karma police, era como se aquilo tudo me fizesse sentir único, melhor que os que me oprimiam naquela época. Radiohead era o meu oásis particular. Minha tristeza diária que me permitia esquecer do desespero cotidiano.
Seguiu-se “Nude” e “Arpeggi”. Pensei a respeito do novo CD. Eu sabia que era bom – a capacidade de compor e arranjar as músicas haviam sido lapidadas pelo grupo – mas simpelsmente não me atingia. Não mais eu conseguia entender a mensagem. Antes aquelas letras tinham tudo que poderiam haver no meu mundo. Eram meus guias, minha biblias. Naquele momento aparentavam ser apenas palavras jogadas ao léu, incapazes de adquirir sentido ou forma concreta. Pensei o que havia mudado naquelas palavras…
… ou se era o meu mundo que tinha se tornado indiferente.
“Talk Show Host” e “Optmistic”. Namorada passa mal. Aparentemente não faz bem pular, gritar e chorar quando o suprimento de oxigênio é tão limitado pelo fato de que ela tem um metro e meio e estava imersa numa multidão. Saimos andando da parte mais central. Luto contra um mar de gente para chegar a uma área menos lotada. Começo a notar nos rostos e nas expressões das pessoas.
Era estranho, ninguem parecia estar com o estado de espirito que eu imaginava para mim – não estavam eufóricos como eu pensava que deveriam. Jesus, eles estavam parados, irritadiços, preocupados com quem ia e vinha, brigando. Pensei, então, se eu estava na mesma situação deles: Incomunicáveis, dessensibilizados à musica que estavam imersos naquele momento. Era eu apenas mais um naqueles que haviam vindo apenas por curiosidade? Será que não mais havia nenhum laço com aquela banda? Será que um dia eu havia tido?!
Todos esses pensamentos corriam pela minha cabeça enquanto eu escoltava a namorada para um lugar mais tranquilo. Seguiu-se uma sequencia de músicas, entre “Idioteque”, “Exit Music”, “Climbing up The Walls” quando nos acomodamos… Eu, nesse ponto já tinha certeza: Algo havia se perdido no caminho.
Foi algo que também aconteceu no show do Los Hermanos, mas que me atingiu com muito menos violência que no show do Radiohead. Já me emocionei muito nnas apresentações do Los Hermanos, a ponto de varios pequenos choros. As letras sempre me pareceram bonitas, vivas de cores. Uma pintura onde as tintas eram messuradas não em quantidades de cores primárias, mas em decibéis.
E no show deles eu canatava, me divertia, mas não era a mesma coisa. E eu sabia que a letra ainda era boa, eu sabia que ainda eram apreciáveis. Mas o elemento que me unia a elas havia se perdido. Será que essas coisas só funcionam por uma época? Todo aquele ardor, aquelas vivências que eu tive com essas bandas… Será que estariam para sempre presos no limbo do passado? Confinados através das solidas paredes dos meus preconceitos da vida adulta, onde são sufocados os sonhos e anseios adolescentes num saúdavel desespero cotidiano?
Eram esses pensamentos que me distraiam. E quando notei, já estava tocando “Everything in its Right Place”. Quase a última. Gostei. Foi bonito. Aquele era o meu mantra favorito para as tardes tediosas, sob o vento de um ventilador. O sol queimava lá fora. Eu pensava nas coisas que eu gostaria de ser. Fiquei irritado. Decidi encerrar ali a minha viagem pessoal à infancia. O Radiohead havia sido bom, mas não foi o que eu queria que fosse.
Talvez se esse show tivesse acontecido a três ou quatro anos atrás… Não sei. Eu tinha algo naquela época, que me fazia amar com intensidade essas melodias. E não é o interesse e a paixão pela música que mudou – não, pelo contrário, ela se ampliou, amadureceu. Eu sinto mais coisas e com muito mais intensidade que antes. Mas por algum motivo essa banda, que marcou o inicio da minha vida como um individuo que aprecia música, que me acompanhou por todas a minhas tristezas e alegrias…
De alguma forma, eu perdi a conexão. Eu mudei demais. Já não era o show da minha vida. A janela para isso havia sido fechada, anos atrás. Em que ponto, eu ainda me pergunto.
Eu era pura solidão quando eles terminaram “Creep”. Deram tchauzinho e nunca mais voltaram. E, para mim, nunca mais voltariam.
“Adeus, Radiohead. Obrigado por tudo”. É hora de ir em frente. Pra onde, não sei.

Fazer uma música para apenas um instrumento é algo para poucos. Descubro isso na minha atual luta para completar uma antiga música para contrabaixo, baseada principalmente em harmônicos naturais. Achar temas, harmonias e motivos que sejam interessantes – e ainda mais executar essa enxurrada de informação – é de tamanha complexidade que já me vi preso ao inicio da música diversas vezes, fiz e refiz diversos trechos e tenho em mãos um amontoados de partes que aos meus ouvidos parecem ter haver um com o outro apenas o sistema harmônico.
Nesse momento que entendemos a genialidade dos grandes compositores e instrumentistas, que do emaranhado que é a criatividade humana, conseguem organizar e ordenar idéias de beleza e força, que podemos dizer imortais, pois assim são as idéias, que ao contrario dos criadores, atravessam os séculos e não perdem a força. Um testemunho da invariabilidade humana.
Queria eu fazer um Portrait of Tracy, mas faço no máximo uma balada do engenheiros do havaí. Que falta? Estudo, dedicação ou talento nato? Seriam aqueles que levam suas músicas ao extremo de conseguir penetrar na barreira do egocentrismo humano todos talentos natos, portadores de dádivas do berço? Será que sou uma espécie de aleijado musical? Um falso talento nunca descoberto?
Sobre isso, apenas o tempo dará uma resposta completa, e suspeito que somente o esforço é a chave para eu não me decepcionar com a resposta.
***
E eu me espanto com o tal do concurso. A votação parece ser aberta – qualquer um que entre na comunidade pode votar. Antes de chamar uns quinze primos e outros trinta amigos, descobri que parece que eu preciso votar nas outras categorias, ou algo assim, senão meu pênis vai curvar e ficar com formato de cedilha.
Tentei a categoria “humor” e me dei conta, que mesmo depois de uns trinta minutos olhando os quatro selecionados, eu não havia dado muitas risadas. Creio ter movido discretamente uma aérea da musculatura na região da boca. Mas foi coceira, não conta. Dentre templates de mal gosto e quilos de vídeos do youtube, constatei que nenhuma sabia fazer humor se utilizando somente de palavras, mas todos sabiam por hyperlinks do youtube e fotos no blog. Então eu mudei meus critérios de avaliação e pedi para o meu primo (o gênio da política) de 4 anos para escolher um dos quatro.
E isso deve resolver o impasse nas outras categorias também. Serão essas pessoas que votarão também? Então estamos fodidos, porque aqui nem elogio pra santa rolou – uma quase constante nos blogs que eu visitei. Ah, e claro, o Psicodélica está perdendo. Não esperávamos mais, porém farei greve de fome e pedirei na Americanas.com um CD do Brunno e Marrone para um suicido doloroso.
Não sem antes falar mal de todo mundo, ora. Se não somos o melhor, podemos muito bem ser o mais imbecil.
UPDATE: Acabamos de notar que, votações abertas no dia 17 deste mês, já houveram cerca de 48 votos na minha categoria. Sabendo que o blog aqui teve nesse período nem sequer 20 visualizações, fico imaginando se as pessoas que votaram resolveram aderir ao estilo psicodélica de votar – que no caso é uma espécie de Dadaísmo para eleições em geral.
Longe de estar preocupado com o resultado da votação (queremos é que Leticia Daumec ganhe para podermos chama-la de gorda por aqui e exercer a nossa falta de esportismo humana) só ficamos curiosos se essa micro-amostragem de uma votação virtual mostra, de uma forma reduzida, como eleitor brasileiro – especificamente o paraense – se comporta em ambiente eleitoral.
É, afinal, o eleitor paraense, uma simples maquina de apertar botões, escolher números aleatórios ou um vendedor de votos, que ao pedido do primo candidato, vai naquela maquininha e sequer entende o que está de fato fazendo para sí e para sua comunidade? E estamos falando da classe média, aqueles que supostamente tem alguma consciência. Eu aqui, sentado no meu computador, imerso no meu niilismo pessoal, sou o pior exemplo da Terra, mas imagino se a maioria (esse conceito mágico) é tal qual eu: Aperta aleatoriamente esses mágicos condutos da democracia humana.
Mas se depender do amor que o blog tem pela prole paraense, a resposta já é obvia – e completamente tediosa.
Sabe, as vezes eu penso sobre o que é este blog. Eu sempre tentei imaginar ele como uma blog de um músico que gosta de falar de suas coisas musicais. De verdade eu tento fazer com que ele seja útil para alguem, que uma certa pessoa possa encontrar a recomendação do CD de sua vida aqui, ou qualquer coisa assim. Mas é inegável, cada vez que eu leio essa joça, o motivo, a fixação, é óbvia demais…
Esse blog nasceu pra esculhachar o Pará.
Seja por que eu odeio o Pará, seja por que o Pará é um dos círculos do inferno dantesco e faz por merecer, raramente existem posts que simplesmente não citem pelo menos uma faceta desagradável de se morar no Norte subdesenvolvido de um pais como o Brasil.
E eis que surfando o messenger, o colega Santa Brigida me fala de algo que simplesmente iria santificar essa cruzada bloguistica contra um estado inteiro, uma coroa de espinhos que beatificaria a missão sagrada de excomungar a corja Paraense de qualquer dignidade que tenham – eu incluso neste meio todo.
Senhoras e senhores, lhes apresento o MARAVILHOSO, o SENSACIONAL, o GENUINAMENTE PARAENSE:

CONCURSO DE MELHOR BLOG PARAENSE.
(Relâmpagos ao fundo)
Gente, juro que não fui eu que fez isso no paint não. Foi a coordenação do concurso que o fez. No Paint, obviamente. E apesar de termos adorado o padrão de cores café, achamos a cara do bonequinho que ilustra a categoria Cotidiano um tanto quanto misteriosa, mas certamente ideal para o proposito. Putz, acho essa expressão TUDO haver com cotidiano. Aliás, muito conveniente, por que essa carinha ai, é quase que exatamente a mesma que eu fiz quando eu vi que tinha que por todos esses selos aqui no blog.
É quase como se dissesse: “putaqueopariu…”
E, claro, eu vou super acreditar que as fatias em branco dentro das letra foram de propósito e que são super tendência. E não tem absolutamente nada haver com aquela ferramenta de preenchimento do Paint que nas mãos juvenis de crianças de 4º série causam um efeito similar.
Enfim, o que seria mais apropriado para um blog de ódio regional do que ter o título de “O Melhor Blog Paraense”? Minha pupilas dilatam só em vislumbrar a possibilidade. Imaginem, aquelas pobres bandas malhadas em meu pequeno blog, ao verem o trabalho de diversos fins de semana serem reduzidos ao pó, e logo ao lado, um selo (espero que tenha a qualidade dos selos do concurso): “Melhor Blog Paraense”. Surtei com a ironia.
Só o fato de eu poder falar besteira com um selo desses aqui no peito, me dá poderosas ereções. É a forma ideal de difamar o Pará. Ser o melhor entre eles, e ainda ser o pior. Depois disso, só me faltará dominar o mundo.
Portanto, lanço-me à candidatura, sem nada mais que um ideal contraditório e sem nenhuma esperança maior do que a que eu coloquei quando comprei um baixo para mim. E enquanto espero os resultados, me divirto com os outros selos da promoção. Observem:



Gente, não sei o que é mais babado: As cores super tendência dos selos ou a cara do mascote da promoção – quero muito chama-lo de “parazinho” ou algo subversivo assim – mas devo dizer: Os organizadores captaram mesmo a essência da ficção na expressão do Parazinho. Odio, amor, trama, desejo, A-V-E-N-T-U-R-A. Tudo que faz um de bom conto uma sensação.
E de antemão, nós já sugerimos aqui o selo do campeão, usando os altos recursos tecnológicos que diretoria do concurso usou em seus selos:
Now, Soldier On!












