Psicodélica


Fuck-Mangá
Novembro 24, 2009, 8:35 pm
Arquivado em: Nerd, Review, Sarcasmo

Existem certas desvantagens em morar com anime-maníacos, como as irritantes e histéricas vozes japonesas que vivem ecoando pela casa ou aquelas pilhas de mangás constrangedores (Vampire Princess, por exemplo, um apelo construtivo à egomania das pessoas) empilhados aleatoriamente pela casa. Nada muito sério, já que eu próprio sou meio que um ex-fã da galera de olhos grandes e poderes cafonas.

E, de vez em quando, eu acabo acompanhando uma série ou outra que trazem aqui para casa. Tento resistir amiúde, sentado no meu pequeno netbook, concentrado em tentar fazer a maldita tarefa acadêmica proposta. Mas aquelas vozes irreais, com entonações improváveis (como alguém pode falar daquele jeito¿ Como é possível¿) me capturam pouco a pouco. Reconheço todos os clichês clássicos do gênero, mas eles não esgotam a sua capacidade de me atrair, por mais imbecis e tolos que sejam. Quando dou por mim, estou sentado na frente do monitor, junto com o meu colega de quarto, torcendo  por um herói infanto-juvenil.

Ora, que atração é essa que o Anime exerce nas pessoas, principalmente nas mais jovens? A identificação com os personagens – independente de serem os protagonistas (sempre belos e com penteados exóticos) ou os vilões da história (que tendem a apresentar uma aparência austera) – é de uma força sem igual em outras animações (como as HQ’s americanas). Porque, mesmo quando o maldito desenho parece ter sido feito para pessoas com um par de cromossomos a menos, a trama é muitas vezes irresistível?

Creio ter encontrado uma provável solução ao problema em Freud.

(Aqui seguem-se as vaias e berros do público. O autor, apesar de acreditar em criticismo destrutivo, reserva para si o direito de se esquivar dos ovos podres e dos tomates fedorentos)

Não me venham com choro. Freud, aquele judeu safado, é o criador da psicanálise, mais conhecida como “adisciplinamaisfodaquevocêumdiavaiquereraprender”. Dentre os milhões de conceitos, vamos ao que nos interessa para o presente problema: o Complexo de Édipo, terror das famílias puras e castas.

Ao contrario do que se pensa, o Complexo de Édipo não é uma mera suruba entre pais, filhos, mães, tias e avós (urgh!).  Sinto desapontar a galera do “mature”.  Na verdade, o Complexo é o triangulo amoroso que, em determinada fase da vida da criança, é criada em torno das figuras paternas e o filho do casal. Esta fase é caracterizada pelo direcionamento das energias eróticas da criança em direção ao progenitor do sexo oposto e a agressividade dirigida ao do mesmo sexo. São derivados da resolução (ou não) do complexo as nossas escolhas de gênero e os modelos de pessoas com as quais iremos nos envolver posteriormente. Não é sempre, mas geralmente nossas escolhas sexuais acabam caindo em mulheres com traços semelhantes à do nosso primeiro objeto de desejo: Nossas mães.

O que chamamos de resolução do complexo é o momento no qual somos efetivamente privados deste primeiro objeto sexual. Vivemos em uma sociedade na qual dar uma fodinha com a mamãe não é lá muito aconselhável. Basicamente, umas das marcas da civilização humana é o horror ao incesto. Como falou-nos Engels – amigo daquele outro barbudo, Marx, que juntos fizeram aquelas lendárias Soviet Parties do inicio do Sec. XX – um dos grandes marcos da história humana é quando a família consangüínea (também chamada “suruba total”, “pegação na night”, entre outros, com o qual designamos relações sexuais livres a todos, independentes de laços familiares) desaparece, dando lugar a outras formas de famílias nas quais foram proibidas as relações entre pais e filhos e, posteriormente, entre irmãos e irmãs consangüíneos.

Portanto, o desejo incestuoso do filho (que, de certa forma, é correspondido pela mãe, ela própria influenciada pela sua historia edipiana) não pode se realizar. A figura paterna tem função primordial enquanto imposição das leis sociais (não só o repudio ao incesto, mas também de todas as normas e condutas sociais) e separação do vinculo mãe-filho. A isto, chamamos “Castração”, que se dá em diferentes formas para homens e mulheres. Manteremos aqui o foco nos homens, já que estaremos aqui falando dos mangás e animes que tem como maior público os homens, sendo estes de composição bem diferente daqueles feitos para o público feminino – que poderemos analisar em outra oportunidade.

A castração tem efeito devastador na psique do menino. Reprime as energias sexuais primordiais de tal forma, que a criança sentirá um desprazer e nojo imensos da idéia do incesto – apesar de que tais energias jamais são suprimidas, encontrado caminhos na psique até outros objetos que possam substituir o primordial, no caso, a mãe.

E o que isso tem haver com Anime, hã?

Como acabamos de dizer, é impossível a supressão das pulsões sexuais em direção à mãe do menino. O que se faz é uma repressão, o que significa que esta encontrará outros caminhos para se satisfazer. Caminhos estes que, simbolicamente serão parecidos com o triangulo edipiano enfrentado pela criança.

E assim, podemos formular a seguinte tese: toda história tem, em sua trama, componentes que remetem a esta formação primordial do psiquismo. Esta aproximação faz com que a trama seja mais ou menos forte para nós. Freud, no texto “Moises e o Monoteísmo”, fala que a composição da história de vida de grandes nomes da história são baseados em identificações edípicas.

Ora, é impossível não fazer uma analogia de mesmo caráter aos animes. Emprestando das analises de Freud, vamos fazer o mesmo com o enredo padrão da grande parte dos animes para adolescentes homens. É geralmente notório um personagem central de índole boa, mas geralmente fraco, tolo ou com algum defeito de nascença. Este tem um desejo, um sonho ou objetivo no qual se vê barrado por forças externas às suas. Geralmente um desentendimento no local onde vive o força a abandonar o lar. Ele encontra refugio entre novas pessoas (uma nova família) onde geralmente treina para ficar mais e mais forte até superar seus algozes e seus próprios limites. Ao final da trama, alcança seus objetivos e derrota não só seus inimigos, mas suas limitações também.

Muitos poderiam colocar grandes criticas a este quadro generalizado das tramas de desenhos. Com razão, os modelos teóricos são geralmente muito pouco úteis para o entendimento geral se não colocados em pratica de forma mais simples. Assim, me proponho a, resumidamente, analisar três animes de grande popularidade e demonstrar os elementos edípicos que estão inseridos na trama deles. Vamos ao primeiro:

Dragon Ball

Hadooo... ops... kamehameha!

Trama Básica: Goku é um alienígena que foi abandonado na terra por motivo inicialmente desconhecido. Foi adotado por Son Gohan, que o criou como um humano. Acidentalmente, o próprio Goku o mata, ao se transformar num imenso macaco. Posteriormente, Goku treina com um velho (mestre kame), superando inimigos continuamente mais poderosos.

Em um ponto futuro da trama, Goku descobre sua origem alienígena e sobre as intenções que levaram seus pais a abandoná-lo num planeta desconhecido: Ele era uma arma de extermínio contra a população da terra.

Trama Edipiana: Freud comenta que, nas histórias clássicas, a dissociação do personagem entre duas famílias – uma boa e outra má – geralmente mostra a dualidade do individuo com sua própria família: Ora é a alvo de sua agressividade, ora de seus carinhos, especialmente a mãe. Obstante, é visível aqui, esta mesma diferença: A família original má, que abandona o seu filho em outro planeta (remetendo à própria castração, enquanto senso de abandono materno) e a boa família, que é a expressão boa de nossos progenitores.

Mais além, a história mostra que Goku era inicialmente, quando criança, muito violento. A sua mudança de temperamento contra o avô (terrestre) só se deu posteriormente, quando caiu de uma grande altura e bateu com a cabeça em uma pedra, perdendo seu instinto destrutivo – um referencia mais clara à castração, só se Goku decepasse o pinto do Picollo.

A questão da família má ainda retorna mais uma vez, quando Goku se vê enfrentando a sua própria raça – que podemos muito bem enquadrar enquanto sua família, já que o primeiro dos alienígenas que retornam é seu irmão, um substituto simbólico do pai, o qual é morto por uma técnica que perfura seu corpo, numa referência a poderes fálicos e vontade de penetrar no corpo do pai como este faz com a mãe – e derrota a todos, numa clara evidência ao desejo de subjugar o jugo opressor e castrador do pai mau que o separa da mãe.

O desejo destrutivo em relação aos pais é também muito claro na morte de Son Gohan (avô) pelo próprio Goku, que quando olhou a lua e se viu possuído por uma força alem de seu controle e compreensão (desejo incestuoso) matou o próprio criador (seu rival para a posse da mãe). Esta força simbólica conferiu a Dragon Ball e todas as suas outras franquias um sucesso mundial estrondoso.

Naruto

Nem fazendo a Cruz...

Trama Básica: Naruto é um jovem que mora na vila de Konoha (ou algo assim). Tal vila é devotada ao treinamento de ninjas de diferentes níveis. Naruto  tem o sonho de se tornar Hokage, que é o mais alto posto da vila, mas é constantemente tido como alguém sem talento e sem dedicação.

Naruto é, na verdade, uma espécie de prisão para um ser mitológico e poderoso, de onde tira forças para sobrepor seus inimigos – uma força maligna que havia matado o Hokage anterior. No decorrer do seu treinamento, Naruto fica mais forte e vai, um a um, sobrepondo seus inimigos e ultrapassando seus limites.

Um ponto essencial da trama é que o amigo de Naruto, chamado Sasuke, se afasta do grupo para completar seus objetivos próprios. Naruto, que acredita que o amigo está cometendo um erro, também se lança ao resgate de Sasuke. O anime e o mangá continuam em produção.

Trama Edípica: Naruto não conheceu os pais – Sequer teve pais, como é revelado algum tempo depois na historia, sendo ele meramente uma forma de conter um ser de grandes poderes denominado “Kyuubi”. A ausência de um núcleo familiar já denota o seu caráter faltoso, delituoso para com a criança, que deixa Naruto por um bom tempo sozinho e sem ninguém para ampará-lo, uma característica central da sensação de castração com a qual o personagem principal luta desesperadamente contra – e simbolicamente, claro.

Na ausência desses, vários personagens lentamente se juntam e se tornam o núcleo familiar de Naruto: São eles os treinadores, amigos de grupo e outros que, impressionados pelo poder de Naruto, começam a admirá-lo e segui-lo. Estes constituem a “família boa” e “humilde”, a mesma que Freud identifica na família que amparou o jovem Moisés.

O que, faz-me lembra, uma diferença gritante entre vilões e mocinhos em grande parte dos animes: O caráter opressivo e arrogante dos vilões e a calma, serenidade e humildade dos mocinhos. Mesmo quando alguns dos vilões apresentam as características humildes dos mocinhos, é uma indicação (que quase sempre se materializa) de que este “passará” para o lado dos mocinhos. O inverso também é verdadeiro, enquanto mocinhos arrogantes tendem a virar vilões na historia. Tal fato só condiz com a indicação de Freud citada em que o protagonista se divide em “família boa” e “família má” e a trama se desenrola enquanto o personagem se vinga da família má e usa a boa para ampliar o seu caráter heróico – e tal divisão, em animes, tende à forte divisão entre “bem” e “mal” que nestes existem, simbolizando cada um dos lados familiares.

Mas exatamente nesta família boa que Naruto apresenta, existe um elemento de castração, de quebra de vinculo: O jovem Sasuke rompe relações com o protagonista – demarcando simbolicamente o que chamamos de “ferida Narcísica”, um elemento principal no evento da castração que é nada mais que a ruptura do ideal de “eu” perfeito – e estes se lançam em combate mortal, defendendo forças antagônicas: Naruto luta para manter a coesão do núcleo no qual Sasuke faz parte e este, por outro lado, visa romper com este.

Neste momento, Naruto e Sasuke são meramente lados opostos de uma mesma moeda, lutando cada qual para defender seus objetivos: Um quer manter o vinculo com o grupo (Relação mãe-filho, inabalada pela ação do pai) e Sasuke quer romper com estes, simbolizando a castração e a relação pai-filho no contexto edipiano.

E nada mais natural do que o que apóia Naruto contra os poderes avassaladores de Sasuke: A Kyuubi, uma força oculta dentro de Naruto, que libera intensa fúria e raiva em forma de poderes incontroláveis e que, mesmo assim, não foi ainda liberada de todo. Neste contexto, a Kyuubi não é nada mais que a pulsão sexual em direção à mãe (simbolizada pelo grupo de Naruto) que é constantemente reprimida (assim como a própria kyuubi é reprimida no interior de Naruto) mas nunca suprimida, liberando cada vez mais poder na busca de naruto pelos seus objetivos – que devo frisar aqui, é a união incestuosa com a mãe.

Não é de se surpreender que Naruto é uma das maiores franquias do mercado de animação japonesa. O simbolismo nele inscrito é gritante e gera um apelo imenso dos fãs.

Samurai X

O Kenshin Afro-Brasileiro

 

 

Trama Básica: Kenshin é um samurai andarilho que vive no Japão do século XIX. Ele viaja sem nunca parar em canto algum, ajudando pessoas sempre que pode. Kenshin possui um juramento próprio: jamais usa sua imensas habilidades para matar alguém. Tanto é que sua espada não possui uma lamina normal: Ela é uma variante da espada japonesa tradicional, que tem a lamina na parte anterior da espada, impedindo Kenshin de matar seus oponentes.

O protagonista encontra então encontra Kaoru, a dona de um dojô em decadência na cidade de Tókio, a qual ajuda a se livrar de um malfeitor. Assim começa uma longa relação entre ambos, no qual ela descobre que Kenshin, na verdade, é um famoso assassino de uma recente guerra e que seu juramento é uma expiação contra as mortes que causou no campo de batalha.

Trama Edípica: Samurai X é tão carregado de simbolismo que chega a doer na vista. Ler o Mangá é quase uma experiência de regressão, dada a simpatia para com os personagens. Ou seja, fans de Kenshin: Quando vocês lêem o mangá ou vêem o anime, vocês estão na verdade transando com as suas mães, lembrem disso.

Comecemos pela proibição à morte, tão explicita e evidente nas ações de Kenshin. No decorrer de todo o desenho, Kenshin luta contra esta pulsão, mesmo quando defrontado com situações mortais. Tal proibição tem um caráter quase obsessivo. Eis aqui o impulso sexual, com o qual o personagem será defrontado e testado constantemente no decorrer da narrativa.

Mas tal característica não poderia ser Per se uma simbolização da pulsão incestuosa se não fosse direcionada de alguma forma para algum objeto simbólico na trama. Mas pouco a pouco destrinchamos a estrutura na qual este desejo repousa: Kenshin aparentemente utiliza esta proibição para manter sob controle o seu instinto assassino, que em situações extrema tende a despertar, causando quase sempre incidentes nos quais a leis é violada. Eis aqui o incesto.

Podemos entender Kenshin não como um personagem que passa pela fase edípica da infância, mas por alguém que já passou por ela. A inscrição das leis no psiquismo – aqui entendidas como a lei do “não matarás” em Kenshin – denotam um complexo já resolvido, mas de forma tumultuosa e não satisfatória.

Kenshin era um assassino. Teve a familia morta durante as guerras anteriores e foi cuidado por um mestre severo, que o ensinou as artes da espada. Por vontade própria – e contra a indicação de seu mestre – Kenshin resolveu lutar na grande guerra, se tornando uma lenda pela habilidade na espada e a grande quantidade de vitimas que causou.

Talvez, possamos compreender o personagem central como simbolicamente lutando contra um Édipo mal resolvido. Após o fim da guerra, kenshin sente um forte sentimento de culpa pelas ações empreendidas e resolve expiar seus pecados. Eis aqui um elemento novo, uma dose de culpa pelo incesto obtido, simbolizado no desenho pela época de matança incontrolável e horrores citadas por Kenshin.

E aqui encontramos uma grande diferença entre este anime, e os citados: Aqui, a culpa tem função primordial no desenvolvimento do personagem. Kenshin não luta para superar seus inimigos – pois é notório no desenho que estes não são páreo  para suas habilidades desde o início – mas sim para superar a culpa avassaladora. Onde os outros animes acham satisfação, neste encontramos apenas o sentimento de culpa de Kenshin.

Esta culpa, uma transfiguração do superego freudiano (o superego freudiano é uma instancia psíquica a qual Freud afirma ter função de introjetar as leis e normas da sociedade) só pode existir num contexto pós-edípico. Como citado acima, Kenshin mais parece alguém lutado contra suas obsessões e conteúdos reprimidos do que necessariamente alguém passando pelo Édipo.

Os posteriores adoecimentos de Kenshin, em parte por um evento posterior no qual Kenshin acredita ter matado uma pessoa querida, mostram uma espécie de adoecimento psíquico, uma neurose clássica. Ao perceber que violou o código, Kenshin cai em profunda depressão. A incapacidade de aceitar (ou de acessar diretamente o inconsciente e seus materiais, no caso) o incesto passado aparentemente chega ao ápice neste momento da trama.

Mas Samurai X merece uma análise muito mais detalhada do que a que eu estou querendo dispor aqui num simples tópico de um blog obscuro. Mas creio que aqui se fez o ponto necessário: O apelo de boa parte dos animes masculinos vem de seus conteúdos secretos, que são atrativos ao nosso inconsciente, que está sempre procurando formas de descarregar energia psíquica, aqui através dos materiais invisíveis da trama.

Perguntas?

 

Uh... Intendi nada não, eu...

Foda-se você então.



Sonho Pós-Apocaliptico
Junho 18, 2009, 2:49 pm
Arquivado em: Nerd, Outros

Correu por dentre os destroços do que era antes uma provável floricultura – havia um pequeno cartaz semi-destruido jogado num canto com uma caricatura de uma jovial e sorridente planta, muito convidativa, que parecia um dia ter sido o letreiro da frente da loja.

“Engraçado as coisas que a gente presta atenção quando perseguidos por assassinos, não?!”, pensou amargamente enquanto pulava por uma parede de samambaias super crescidas e emergiu em um imenso orquidário, cujas orquídeas chegaram a tamanhos absurdos, transformando aquele espaço numa mini-selva.

“E sem a ajuda daqueles malditos floricultores que me cobravam 20 penses por vaso. Safados”, resmungou em voz alta enquanto pulava mais uma janela, dessa vez para uma paisagem mais familiar:destroços de uma antiga área residencial. Pequenos prédios de menos de seis andares que sucumbiram e haviam criado complexos labirintos de destroços, seus antigos estacionamentos subterrâneos eram agora abrigos cobiçados para aqueles que sabiam onde achá-los.

Ziguezagueou por dentre os destroços de vários carros, pulou alguns imensos blocos de concreto e correu por uma estreita passagem, que dava em uma longa rampa que conduzia para um estacionamento subterrâneo. Já não ouvia mais o som das motos, mas não conseguia parar de se sentir perseguido – e bem sabia que, de fato, estava mesmo. Conhecia a japonesa e sabia que ela só desistiria dele quando estivesse morto.

“Japonesa” era uma mercenária com a qual já trabalhara antes, mas nunca se dera ao trabalho de saber seu nome, no Maximo chamando-a de “Lucy Thai”, uma antiga atriz pornô da época de quando ainda existia internet e se gabava de seu imenso acervo de pornografia – uns 3 terabytes, apenas de vídeos, coletados durante uma adolescência triste e melancólica – ela provavelmente não sabia da etimologia do nome, mas se não gostava da nomenclatura, nunca lhe havia dito e quando terminaram o serviço que estavam fazendo, achou que nunca mais a veria. Viva, pelo menos.

Portanto havia sido com surpresa quando, naquela manhã, havia “esbarrado” com aquele rosto oriental mais uma vez, apontando um singelo Canhão de Assalto Barret Osaka M100, capaz de atravessar um tanque como se fosse manteiga, apontado para a sua têmpora. “Um exagero só”, exclamaria depois para seus companheiros, casso sobrevivesse para isso. E era o que estava tentando fazer a três quilômetros, com muita dificuldade.

Mas havia chegado ao seu “esconderijo sujo e nojento”, como costumava se referir a ele. Agora mais parecia o Bangalô Presidencial do Beverly Hills Hotel, entupido de bebidas e mulheres. Correu a longa rampa descendente, dobrou depois de uma parede que prometia despencar à menor ofensa e chegou em um pequeno amontoado de caixa encostadas na parede, onde estacam duas pessoas estavam sentadas entres as pilhas de equipamento.

Havia sido burro o suficiente para sair sem uma arma naquele dia e mais burro ainda de depender agora de duas pessoas que conhecera no dia anterior para lhe defender de uma possível assassina japonesa equipada com um canhão móvel que matariam a todos eles mesmo que fosse simplesmente jogado em cima deles.

- Cacete, tem alguém atrás de mim, caralho – correu para trás de um pilastra próxima, onde sentou-se – porra, peguem as armas, caralho, e atirem nessa filha-da-puta, anda porra!

“Era um recorde em palavrões por sentença”, gabou-se. Era um homem simples, com pensamentos simples.

As duas figuras pareceram espantadas o bastante para piscar uma ou duas vezes. Um deles chegou a quase bocejar, mas numa manobra impressionante, transformara o bocejo numa tosse, seguida de uma vigorosa lambida no lábio inferior, que parecia estar mais seco que o habitual.

- Bem que poderia chover um pouco, não é? Está muito seco ultimamente… – disse um dos homens.

Tanta ação havia deixado o personagem desta fabula tonto. Repetiu mais uma vez que estava sendo perseguido pela própria morte incorporada de traços nipônicos e que precisava de uma ajuda maior que uma análise climática para sair vivo dessa. Os dois olharam-no, levantaram um ou duas sobrancelhas e, por fim, deram de ombros. “Pelo menos fora algo mais parecido com preocupação, desta vez…”, pesou.

- Dê-me uma arma pelo menos, seus animais! – gesticulou com a sua mão para que lhe jogassem algum objeto de destruição em massa. “Algo como o CD da Celine Dion, sei lá”. Um dos homens começou a revirar uma pilha de entulhos. Foi quando o som da moto se tornou audível e o do ranger dos dentes do personagem completamente inaudível.

Duas motos, de repente, surgiram entre a pilastra e o pequeno acampamento. “Duas?”, pensou, “sério, eu queimaria todos os meus mangás se eu soubesse que esses japoneses safados iriam me sacanear assim um dia!” e não conseguiu deixar de notar que as motos pretas eram japonesas, a arma gigante, que estava mais uma vez apontada para sua cabeça, de uma empresa japonesa e aqueles olhos fechadinhos e sem expressão vinham de um maldito gene japonês. “Malditos.”

Thumbs Up!

Foi quando caiu algo ao seu lado. Tirou o olhar do longo cano apontado para si e olhou uma pequena pistola preta caída ao seu lado. Olhou para o acampamento e um dos seus companheiros lhe abria um amplo sorriso e lhe dava um “Thumbs Up!”, símbolo universal do “te fode, irmão!”. Estava fodido mesmo e, sem pensar muito, pegou a pistola, mirou a cabeça da japonesa e atirou.

“Rá tá tá tá”, mas nenhuma bala havia saído. Só um som que tentava, sem muito sucesso, desesperadamente ser o de uma metralhadora emergiu no espaço, agora silencioso, do estacionamento. Olhou melhor a sua arma e viu que ela tinha um pequeno fio que pendia da coronha, terminando numa pequena terminação elétrica que – ele sabia, conhecia bem aquele plug – deveria ser ligada num antiguíssimo Master System, ou aparelho similar. Era uma arma de brinquedo.

Olhou melhor a arma e leu “Sega” impresso na lateral. “Malditos japoneses, todos…”.

Pulou para frente da japonesa, seus pés amplamente separados e fixos no chão, apontou-lhe com firmeza a arma e, repetidamente, apertou o gatilho:

- Toma isso, e isso, PTIÚ, ah! Não esperava por, PTIÚ, por essa, não é? PTIÚ, PTIÚ!

Uma nota: “PTIÚ!” é a onomatopéia mais perfeita já criada para descrever disparos laser que se movimentam as velocidades menores que a da luz. Ou seja, os lasers de Star Wars, criados com o único objetivo de serem bloqueados. Depois de alguns disparos contra a japonesa – que defletia com o seu olhar cada disparo, como se seu sabre de luz se chamasse “DESPREZO” – correu em direção à moto preta e disparou um pouco contra ela:

- E você, sua maldito consumidora de combustíveis fosseis, mais isso e isso: PTIÚ! PTIÚ! Quem manda, PTIÚ, nesse pedaço são, PTIÚ, as bicicletas, PTIÚ, sua escrota filha da puta, PITÚ!

Ainda não satisfeito apontou para todas as direções e continuou a disparar contra tudo e todos: “E isso é, PTIÚ, para você seu mundinho escroto, PTIÚ, por ter se tornado tão miserável, PTIÚ, e nojento e por ter tirado de mim, PTIÚ, os meus blogs, PTIÚ, e as minhas, PTIÚ, redes piratas de, PTIÚ, compartilhamento de arquivo, PTIÚ, e PORNÔGRAFIA!

PTIÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ!

Soltou um último e longo disparo enquanto caia no chão de braços abertos, esperando o disparo fatal que lhe faria virar pó dois terços do seu corpo e uma boa parte do chão em baixo dele em um fumegante buraco. O que veio, no lugar disso foi o segundo motoqueiro, que havia ficado mais para trás, escondido atrás de uma pilastra. Retirou o capacete e revelou uma cabeça não muito menor que o capacete, cheio de veias e dispositivos mecânicos entranhados na carne.

- Temos uma proposta para você – falou o cabeçudo, enquanto desenrolava um longo papiro – está descrito aqui, em minúcias, nossos objetivos e filosofias políticas, também uma lista de pessoas que apo…

- Ô, tiozinho, pode parar com essa merda, aê. Não quero saber o por que queres fazer quaisquer merda – falou enquanto se levantava do chão, jogando energicamente a pistola contra seus companheiros, que continuavam tão surpresos quanto antes. Um deles havia começado a fazer as unhas do pé, enchendo o ambiente de um som característico: PLÉC – apenas diga o que é para ser feito: Estupre umas criancinhas, empurre uns velhinhos na rua, queime um orfanato. Tanto faz, só quero meu pagamento, ouviu?!

Com um triste olhar, o Cabeçudo olhou para o seu negligenciado papiro. Não era a primeira vez que alguém recusava a ler o seu texto tão bem redigido e preparado. Na verdade, ninguém, exceto ele mesmo havia lido a extensão toda, e se ressentia muito toda vez que alguém fazia aquilo. Guardou o papel sob a jaqueta de couro, escondeu uma lagrima e disse:

- Muito bem, trate dos preparativos com a Márcia, ela sabe de toda a missão e quaisquer outras coisas que precise saber – apontou para a japonesa.

Ficou um tanto quanto pensativo quanto à revelação do nome da japonesa. “Márcia?!”, “só pode ser brincadeira”. Então um pensamento lhe ocorreu e, antes que o cabeçudo, já de capacete posto, subisse na moto, perguntou-lhe:

- Ei! Quer dizer que era isso o tempo todo?! E vocês, seus dois fudidos sabiam desde o inicio também?! – apontou para os dois que riam – Então por que essa perseguição infernal por três malditos quilômetros, atirando em mim com esse maldito canhão?

O cabeçudo olhou para ele, depois para Márcia, soltou um riso abafado subiu na sua moto e, antes de ligar-la falou:

- Não sei direito, foi idéia dela. Algo haver com um filme pornô antigo: Weapons Of Ass Destruction n. 4, com Luci Thai.

Saiu zunindo com a moto pela rampa, deixando para trás o cheiro de combustível e borracha queimada, e o primeiro sorriso que ele já havia visto na boca daquela japonesa.

***

Foi ai quando acordei, triste por não saber ao certo qual era a tal missão, nem se eu conseguiria um dia sabe-lo.



O Quarto
Junho 13, 2009, 12:56 pm
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claus

Este quarto é Deus.

Dutos elétricos enquanto artérias se conectam ao pequeno, porem luminoso, cérebro de 60W que pende do teto – sempre aceso. As tripas se remexem por dentre intestinos de madeira e jeans. Ciclope de nascença, esse deus, pois exibe apenas uma janela na parede norte, que permanece fechada e trancada, a maior parte do tempo.

Não tem porta, meu quarto.

Normalmente me perguntam: “Que fazes entre as vísceras do divino?!”. Não sei, de fato, mas converso com as paredes diariamente. Dou-lhe conselhos (as vezes dúbios, pois eventualmente não sei bem o que responder), trocamos idéias e as vezes desabafa comigo. Diz que está um pouco cansado, mas não consegue dormir, mesmo de olhos sempre fechados.

Me pergunto se não é culpa minha…

Como vim parar neste quarto é uma questão meio controversa – não lembro ao certo. De recordações, a maioria eram as dentre estas paredes. Mas nem sempre elas foram assim, de cor opaca, carregadas por infiltrações e uma ou outra rachadura a lhe ornar a tinta que descasca.

Tinha uma vaga recordação de quando aquele quarto era bem maior. Quanto maior, não sei ao certo, mas era imenso. Poderia se tentar correr de uma lado a outro sem encontrar os limites físicos da alvenaria. O teto era alto, tão alto quanto um teto poderia vir a ser e se estendia até onde eu conseguia focar minha visão. Era de um azul turquesa maravilhoso e denso. A lâmpada pedia de lá do infinito, mas não era de humildes 60w como a de hoje. Não, era muito mais forte, muito mais brilhante. Era como uma imensa explosão de calor por todo o ar ao meu redor.

Certa vez eu havia decidido andar em linha reta, até onde me permitissem os ligamentos de meus músculos e a sanidade de minha mente. Não sei por quanto tempo eu andei – nem o por que fiz isso – mas quando dei por mim, estava andando num espaço vazio, meus pés se apoiavam em coisa alguma, apenas um vazio negro. Pequenos focos luminosos passavam por mim, como insetos. Olhando de perto, tinham o formato de pequenas espirais luminosas, cheias de algo mais que luz.

Corri mais algum tempo e já não havia mais nada, nenhum foco de luz, nenhum inseto espiral nem nada, apenas escuridão. E quando pensei que minha consciência também se esvaia naquele vazio profundo, senti algo mais concreto sob meus pés. Então percebi que eu havia pisado num piso de madeira, que de repente surgia da escuridão, sem muitas explicações.

Notei também que, da mesma forma, surgiam duas paredes e já era possível vislumbrar o teto cingindo da escuridão a qual me encontrava. Chão, teto e paredes pareciam dirigir-se até um ponto à frente. Um vertice, como o canto de um quarto.

Andei mais e mais, à procura do ponto inicial, de onde surgia a estrutura. Pensando agora, era como uma versão aumentada do lugar que eu me encontro hoje em dia. E foi assim que eu cheguei no pequeno canto do quarto, onde reunia-se o teto e duas paredes, como se tudo aquilo fosse uma mera extensão de um quarto normal.

Havia uma janela fechada na parede esquerda. Indicios de um pequena infiltração também se revelava proximo ao vertice. Uma figura alta e forte, de longa barba branca e túnica de mesma cor me esperava lá. Ria como se eu estivesse contando uma piada. Estava sentado numa pequena poltrona de veludo vermelho. Falou-me alguma coisa enquanto sorria amplamente. Percebi, então, o quanto eu estava exausto. Meus olhos fechavam, fora de meu controle.

Foi quando ele convidou-me a voltar pra casa. Acordei olhando outra vez o azul turquesa, sentindo o calor de casa. Fora um sonho? Não sei ao certo.

Mas este tempo passara, e desde daquilo, tudo parecia ter lentamente se tranformado. O azul fora pouco a pouco substituido pelo forro de madeira, as imensidões confinadas e a lâmpada primordial brilhava agora fraca, muitas vezes falhando, dando sinais de cansaso. A janela era a mesma daquele evento, mas nunca mais eu havia visto o senhor de longas barbas.

Agora eu não mais corria alegre. Vivia deitado, ouvindo a voz triste e nostálgica que emanava das paredes. Sentia as contrações do quarto, pois era ainda vivo. Sempre fora. Sua imensidão anterior apenas dispersava a sua consciência. Agora, menor, estava lúcido – como alguem que, um pouco antes de morrer, ganha total onisciência de sua situação.

***

Um dia, senti algo estranho ocorrer. As paredes vibravam levemente, a voz gemia de dor. Fiquei a espera de alguma cataclisma, das paredes desabando em mim. Mas nada aconteceu. A lâmpada então apagou, espalhando aquela escuridão já conhecida pelo quarto. Tateei meu caminho até a janela. Tentei abri-la a primeira vez, mas sequer moveu-se.

Imprimi mais força na segunda investida e de súbito escancarou-se de forma inesperada. Uma luz estranha inundou o quarto e vi, atrás de mim, abrir uma porta – uma que eu nunca havia visto antes, mas não conseguia duvidar que estivesse ali desde sempre.

Vi de relance uma figura vestida de branco sair por ela. Decidi deixa-lo ir e segui meu próprio caminho. De um salto, voei pela janela, meu corpo modificou-se e meu pensamento não mais era pensamento. Solidificara-se.

Foi desse jeito que meus dias terminaram. Já não existem mémorias desde daquilo tudo. Apenas uma claridade insuportável, mas esclarecedora. Não preciso mais do quarto. Ou ele não precisa mais de mim. Tanto faz agora.

Converso com alguem que agora habita dentro de mim.



Foraclusão
Maio 22, 2009, 12:53 pm
Arquivado em: Nerd, Outros

Toda criança teve, de uma certa forma, momentos nas quais se sentia num mundo ao qual julgava místico, fantástico, permeado pelas fantasias típicas das crianças: Achava que havia monstros abaixo do lençol, aglutinava travesseiros na forma de uma caverna e considerava-o castelo inexpugnável contra as forças do mal, considerava o pequeno pedaço de pau a própria Exacalibur renascida, enterrada na caixa de brinquedos, que faria papel da rocha mística. Coisas de criança, afinal…

Não posso dizer que não passei por isso também. Óbvio que sempre fantasiava sobre todas as coisas que conseguia ao meu redor. Até hoje lembro de como as sujas paredes do meu antigo prédio me eram como as paredes de uma antiga pirâmide asteca: Inexploradas, misteriosas.  Suas escadas um território proibido, donde os mais velhos viriam, mais tarde, com historias que excediam qualquer experiência que eu já tinha passado.

Tudo era novidade.

Mas eu tinha uma triste tendência, uma impressão que sempre deixava uma marca indelével em todas minhas memórias. Eu acreditava em minhas fantasias – tinha fé total na veracidade delas – mas o meu papel nelas sempre foi a de, no maximo, um mero observador, frustrado, incapaz de participar presencialmente daquelas historias. Atrás da porta sempre fechada que existia ao lado do refeitório da escola existia uma escada para algum lugar, um lugar maravilhoso – mas eu bem sabia que eu nunca poderia entrar ali. Era desse jeito que eu me sentia. De fora.

E fazia um bom tempo que eu não me sentia explicitamente assim, apesar de que eu ainda ache que tudo que eu faço hoje em dia tem uma certa reminiscência do modelo perceptivo daquela época. Mas, ora, outra vez eu me senti dessa forma dia desses e não pude deixar de notar o desconforto com a coisa toda.

Foi durante o ensaio do Coral do BASA, enquanto ensaiávamos a Ave Maria de Gounod que, outra vez, me vi de fora de algo que eu fantasiava. O coral estava disposto à frente da regente, que balançava seus braços e lançava por muitas vezes olhares carrancudos a um ou outro infeliz que desafinava naqueles lá sustenidos altíssimos que a música apresentava. Ao lado dela, de frente para todo o coral, estavam também o Tenor e Soprano solista, apoiados pela pianista que ensaiava conosco ali também.

Então, parado ali, cantando em uníssono com todo o coral a linha das contra-alto – o coral não havia agüentado o arranjos para quatro vozes, reduzindo todos os naipes a um só – eu via o limite. A separação entre eu e o que eu fantasiava todos os dias. Ali estavam os músicos, olhando para nós, esperando que fizéssemos tudo certo, e as pessoas comuns, torcendo para que suas performances agradassem o julgo dos músicos.

Eu, que de uma certa forma sou muito orgulhoso pelas qualidades musicais que obtive através dos anos (não sem uma certa dificuldade), me via imerso na massa amorfa das pessoas que não entendiam de sustenidos, achavam as cinco mágicas linhas do pentagrama difíceis demais para se aprender e não entendiam as maravilhas da polifonia vocal. Eu achava que sabia dessas coisas, mas eu não sei, afinal.

E, pensando agora, o pensamento que me ocorreu naquele momento foi não só humilhante, mas bem cafona: Lá estavam os quatro anjos que, com muita dedicação e paciência, tentavam ensinar meros mortais os dons da música. Traziam de além mar conhecimentos impares que dividiam em parte conosco, falavam a linguagem das notas musicais e liam suas partituras como se leria em voz alta um texto a uma platéia. Sem hesitação, sem erros. Eu, em minha arrogância, queria ser um daqueles seres místicos, mas eu não era. Era apenas um tolo. Via-os flutuar no frenesi musical enquanto que eu me esforçava para cantar o lixo de uma melodia em uníssono.

 Eram eles e nós.

E mais uma vez eu sentia o incomodo sentimento de que eu iria para casa e eles iriam para algum outro lugar – talvez aquela mesma porta ao lado do refeitório cujo interior eu apenas sonhava quando criança. Iriam até ela, abririam-na e me deixariam de fora, esmurrando-a, imaginando por que eu nunca poderia entrar ali. Por que eu nem sequer saberia onde ela levava.

As coisas não mudam mesmo. Coisas de criança… Ou como diria Lacan: “A verdade tem estrutura de ficção.”